UMA NAÇÃO DE DESOCUPADOS

Dambisa Moyo, economista nascida na Zâmbia, é autora do poderoso livro Dead Aid – Why aid is not working and how there is a better way for Africa. Nesse trabalho, Moyo denuncia aos males que a ajuda humanitária causa aos países africanos. Nos últimos cinqüenta anos, mais de um trilhão de dólares foram doados para os países africanos por líderes de nações desenvolvidas, além de doações advindas de campanhas de ONGs, artistas hollywoodianos e estrelas da música. Não é preciso ir muito longe para constatar que essa enorme soma em nada colaborou com o fim do tragédia humanitária que assola países como Etiópia, Serra Leoa, Uganda, Ruanda, dentre outros. Pelo contrário, conforme argumenta Moyo, esse dinheiro colabora com o financiamento de regimes sanguinários de certos líderes africanos, além de garantir a manutenção da corrupção, da dependência das nações africanas, das distorções de mercado e, inevitavelmente, da miséria frente a qual milhões de africanos sucumbem. O continente africano é prova cabal da inutilidade da doação de dinheiro desprovida de qualquer projeto que garanta os meios para que países e pessoas possam gerar e administrar seus próprios recursos, de modo a não depender da boa vontade de governos.

No Brasil, a política do bom samaritano é uma realidade desde a massificação de programas sociais como o Bolsa Família. É certo que o Brasil é uma nação marcada por profundas desigualdades sociais, é certo que essas desigualdades devem ser combatidas urgentemente para garantir nosso desenvolvimento, mas é errado partirmos da premissa que a simples doação de dinheiro resolverá nossos problemas.

A doação de dinheiro (sim, é isso que os programas sociais são no final das contas) quando realizada sem projetos sérios que visem a inserção dos agraciados no mercado de trabalho, tão-somente cria uma nação de desocupados incapazes de viver dignamente sem a ajuda financeira do Estado. Os ajudados nunca sairão dessa condição, jamais gerarão renda, não terão ímpeto de romper os laços de dependência com o governo e trabalhar para sua própria melhoria de qualidade de vida.

No outro lado do cabo está a classe média, a maior prejudicada pelas sandices dos governantes brasileiros. É a classe média que arca financeiramente com esses programas, é ela que vê minguar seus recursos, é ela que sofre para que os agraciados permaneçam agraciados e, gratos que são, mantenham os “benfeitores” no poder. Essa classe média, formada também por pequenos empresários que produzem e geram emprego, vê todo o seu esforço empreendedor descer pelos ralos da política nacional que prioriza os desocupados e pune aqueles que trabalham para gerar recursos.

Sim, é necessário agir para tirar tantos brasileiros da situação de miseráveis, mas isso em momento algum pode recair sobre os ombros de poucos, da mesma forma que não pode criar uma situação de profundo comodismo para os agraciados. É antes preciso que essa “ajuda” assuma outro caráter, um caráter de educação voltado para o despertar e desenvolver do empreendedorismo, da independência e da vontade de crescimento individual. Tudo isso aliados a políticas públicas de incentivo a criação de novas empresas, de novas possibilidades de geração de renda.

O Estado brasileiro não pode assumir papel semelhante ao dos “benfeitores” que enviam recursos para os miseráveis da África, sob pena de amargarmos o mesmo cenário de estagnação que caracteriza certas nações do outro lado do Atlântico.

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