O DESAFIO BRASILEIRO

O texto que se segue foi escrito por L. Fleischmann, consultor de segurança e professor de sociologia e ciência política nos Estados Unidos. O artigo foi publicado no dia 12 de outubro de 2009 aqui.

Considerei algumas colocações de Fleischmann interessantes, principalmente porque ele analisa o tema mediante um olhar estrangeiro que, embora traga certos pensamento viciados, afasta-se dos vícios de muitos comentaristas que estamos “acostumados” a ler. Assim, achei por bem traduzir o artigo e disponibilizar no blog.

Com vocês:

O desafio brasileiro para os E.U.A

Sob o presidente Lula da Silva, o Brasil se tornou um esquizofrênico moral e político

Por Luis Fleischmann

Para aqueles preocupados com a segurança do hemisfério, a grande questão tem sempre sido como nós vamos conter a ambição expansionista de Chávez. Sob a administração Bush, a resposta, nas palavras de um senador republicano, era: “a contenção de Hugo Chávez deve ser assumida pelos países da América Latina”. Essa concepção era consistente com a idéia de uma política não-intervencionista na América Latina.

De fato, mesmo sob a bélica administração Bush, a política foi de boa vizinhança, concentrada na tentativa de desenvolver relações comerciais. Sobre Hugo Chávez, a política foi basicamente ignorar seu hostil anti-americanismo e até suas intervenções em países vizinhos. A esperança era que os latino-americanos iriam eventualmente perceber que Chávez era o bandido e então tentariam isolá-lo. Isso nunca aconteceu.

Aparentemente, o país que a administração Bush tinha em mente quanto sugeriu a política de contenção era o Brasil. Liderado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (Lula), um socialista pragmático, o Brasil não dependia da generosidade de Chávez para seu bem estar econômico. Pelo contrário, o Brasil era a maior e mais dinâmica economia na América Latina. Além disso, seu poder econômico e industrial iria prevalecer sobre as ambições de um homem louco como Chávez, cujo poder depende unicamente da produção de petróleo.

Porém, o Brasil de Lula tem algumas contradições inerentes.

O Partido dos Trabalhadores (PT)

O partido de Lula (PT), foi fundado em 1980 por sindicatos que surgiram no Brasil como resultado da crescente urbanização. O PT, ao contrário da maioria dos partidos de elite na América Latina, incluiu organizações de base com permanente participação nas decisões em todos os níveis. O PT agregou todo um escopo socialista e de movimentos sociais, como uniões, grupos de direitos humanos, grupos ligados à teologia da libertação dentro da Igreja Católica* (um grupo cristão que tenta a reconciliação da teologia cristão com o marxismo), ambientalistas, grupos de mulheres, indígenas, grupos afro-brasileiros e o poderoso Movimento dos Sem Terra (MST).

O componente radical do PT era claro. Lula era simpático às idéias de Fidel Castro e juntos eles fundaram o “Foro de São Paulo”. O “Foro” prometia fornecer uma alternativa contra o consenso de Washington e suas políticas neo-liberais, assim como uma terceira via às políticas da esquerda européia. O “Foro” foi criado como uma rede latino-americana de solidariedade entre socialistas, comunistas e vários grupos, incluindo alguns guerrilheiros, para se fortalecerem no rescaldo do colapso do império soviético. Entre os líderes do “Foro” estavam indivíduos como Daniel Ortega, dos sandinista, e líderes de movimentos guerrilheiros, como as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), a União Revolucionária da Guatemala (URNG), Frente Farabundo Marti de Libertação Nacional (FMLN) de El Salvador e o Partido da Revolução Democrática do México (PRD). A teologia da libertação faz parte também do “Foro”. Hugo Chávez aderiu ao Foro em 1995, época em que ele ainda não era presidente da Venezuela.

O “Foro” abraçou uma ardente postura anti-globalização e anti-estadunidense. Também falava pelos direitos das populações indígenas e promoveu o separatismo indígena dos estados nacionais latino-americanos.

Assim, não é de se surpreender que a administração Bush tenha olhado com ceticismo a eleição de Lula a presidente em 2002. Inicialmente, estas suspeitas eram justificadas enquanto o Brasil caminhava para a implementação de algumas dessas ideologias pró-terceiro mundo.

Como um exemplo, o Brasil sediou uma cúpula Sul Americana/Árabe em maio de 2005 onde a resolução de Brasília foi adotada. A resolução louva o governo do Sudão por sua ajuda na tentativa de resolver o problema na região de Darfur sem mencionar a responsabilidade do Sudão no genocídio que ocorreu lá. A resolução também se comprometeu a combater o terrorismo mediante uma conferência internacional voltada para o estudo e a definição do terrorismo, mas isso se deu de uma forma a evitar uma clara e inequívoca condenação ao terrorismo atual. Similarmente, a cúpula condenou a “Syria Accountability Act”, uma lei aprovada pelo governo dos EUA para impor sanções a Síria devido a seu apoio ao terrorismo. Não obstante, os participantes queriam uma Corte Internacional de Justiça para exigir que Israel derrubasse a barreira de segurança construída para prevenir ataques terroristas.

Pragmatismo VS ideologia

A despeito do socialismo e do anti-imperialismo terceiro mundista de Lula, ele rapidamente se transformou em um pragmático na política interna e internacional. Uma vez no poder, o PT construiu uma ampla coalizão com partidos do centro e da direita, incluindo a nomeação de conservadores para o gabinete ministerial. Cooperação com empreendedores e apoiadores das políticas neo-liberais foram procuradas e implementadas.

Nas questões internacionais, a despeito do tradicional anti-imperialismo do PT, o partido não procurou um confronto com os Estados Unidos ou com o Fundo Monetário Internacional. Igualmente, ele manteve uma distância dos seus antigos aliados do “Foro”, Hugo Chávez e Fidel Castro, ao recusar a adoção do dogmatismo anti-americano destes. Similarmente, Lula assinou acordos bilaterais de cooperação com os EUA para desenvolver energia alternativa para a região. Recentemente, ele também se distanciou daquelas na América Latina que objetivavam estabelecer mais bases militares na Colômbia.

A atitude do Lula levou os políticos dos EUA a acreditar que Lula tinha a legitimidade e o pragmatismo que iria eclipsar Chávez.

Contudo, um grande e perigoso desapontamento está emergindo de Brasília nos últimos meses.

O reverso de Lula: abraçando o Irã e capacitando Chávez

No ultimo verão,** depois da eleição presidencial do Irã no dia 12 de junho, o presidente Lula foi o primeiro líder do Ocidente a reconhecer o presidente linha-dura Mahmoud Ahmadinejad como o vencedor legítimo apesar das grande evidências de fraude. Nada significou para Lula o fato de que todos que protestaram contra o regime teocrático eram indivíduos corajosos lutando por liberdade. Na verdade, Lula comparou de maneira ridícula os protestos pós-eleições em Teerã com uma briga entre torcedores de dois times de futebol rivais no Rio de Janeiro.*** Nenhum outro país no Ocidente, exceto a Venezuela, reconheceu a legitimidade do resultados das eleições iranianas.

Lula foi mais longe. Durante a última Assembléia Geral da ONU, ele defendeu a relação do Brasil com o Irã, basicamente dizendo que ele não pode julgar as ambições nucleares do Irã ou o caminho que as eleições de 12 de junho tomaram. Ele também sublinhou que “não se envergonha de ter relações com o Irã”. Igualmente, ao fazer referência ao anti-semitismo iraniano e à negação do Holocausto, Lula defendeu o direito de Ahmadinejad de “pensar diferente”. Então, Lula anunciou que o Brasil vai enviar uma missão comercial para o Irã nos próximos meses, para explorar áreas de investimentos comuns. O comércio entre os dois países quadruplicou nos últimos cinco meses.

Parece agora que Lula, depois de anos de destacável pragmatismo e centrismo, está retornando para os dias de radicalismo. O que é pior, Lula está indo da mera retórica para a política perigosa. Ele disponibilizou a embaixada brasileira em Tegucigalpa para Zelaya, o presidente deposto de Honduras, que foi deposto em junho. Zelaya foi deposto porque ele tentou fazer uma reforma constitucional seguindo o modelo de Chávez, desobedecendo a vontade do Congresso de Honduras e a Suprema Corte. Zelaya agiu dessa forma depois de desenvolver relações próxima com Hugo Chávez. A restituição de Zelaya ao poder não estava apenas na agenda de seu patrono, Hugo Chávez, mas também na agenda da Organização dos Estados Americanos e do Governo dos EUA. As negociações para restituir Zelaya levaram a lugar nenhum, então o Brasil se adiantou ao oferecer sua embaixada em Tegucigalpa para hospedar Zelaya enquanto ele se organiza para retornar ao poder. Embora não saibamos como a situação em Honduras vai se resolver, é evidente que a presença de Zelaya no país aumenta a violência e intensifica a possibilidade de uma guerra civil. Em outras palavras, o Brasil está ativamente promovendo a violência em Honduras para servir aos interesses de ninguém menos do que Hugo Chávez.

Curiosamente, as tensões entre as facções no PT e Lula tem sido registradas por anos. Muitas dessas tensões emanam das reclamações das facções radicais do PT que dizem que Lula não levou as reformas sociais longe o suficiente. Um desses movimentos é o Movimento dos Sem Terras (MST), que era uma parte integrante na fundação do PT. O MST é um movimento social que objetiva efetivar a reforma agrária mediante um ideologia militante radical e ações semi-violentas que incluem bloqueio em estradas e invasões ilegais de grandes pedaços de terra.

O MST, assim como a base do PT, faz parte do Congresso Bolivariano dos Povos (CBP), uma organização controlada por Hugo Chávez cujo objetivo é alcançar as organizações de base do continente. Essa organização ajuda a aprofundar a revolução Bolivariana de Chávez. Além disso, eles usualmente recebem fundos de Chávez. O website do MST (www.mstbrazil.org) disponibiliza artigos e materiais de apoio à Hugo Chávez, e destaca as realizações de sua revolução.

Em outras palavras, o governo de Lula parece estar abandonando a via pragmática e abraçando as demandas das mais radicais e ideológicas facções ao seu redor. Além disso, sua surpreendente política para o Irã parece reavivar os fantasmas de Lula do “Foro de São Paulo”. Parece, ao contrário das expectativas, que é Chávez que está contendo Lula, não ao contrário.

Esse comportamento serve aos interesses do Brasil?

Chávez e o Irã têm tido um relacionamento muito próximo. Como tem sido anunciado, os dois países são parceiros em investimentos de risco cujo único propósito é ajudar o Irã a evitar as sanções impostas. Quanto mais o Irã for hábil para contornar as sanções, mais ele pode se focar no desenvolvimento do seu perigoso programa nuclear. Chávez começa também a vender ao Irã 15% da gasolina que o Irã precisa para levar a cabo esse mesmo propósito. Há tempos que isso tem sido denunciado, e recentemente foi  confirmado por um alto funcionário venezuelano que os dois países estão cooperando em matérias relacionadas com a extração de urânio, com o qual o Irã poderia desenvolver uma bomba atômica e outros elementos da tecnologia nuclear.

A Venezuela tem sido a maior apoiadora do Irã do mundo. Como resultado, o Irã está profundamente grato à Chávez. Posto isso, o que o Irã irá fazer para retribuir seu amigo Sul Americano? O mais provável é que Chávez vai pedir para o Irã fornecer armas nucleares para a Venezuela quando conseguir obtê-las. Chávez é um homem com ambições imperiais que clama por poder. Anteriormente, ele comprou da Rússia uma grande quantidade de armas sofisticadas.

Seguindo essa lógica, para mim é claro que a posse de armas nucleares vai fornecer a Chávez o respeito e o medo que ele precisa para realizar sua agenda de exportação de sua revolução, assim como para controlar e dissuadir quantos países forem possíveis. Isto é ainda mais assustador se nós nos perguntarmos por quê o Irã iria recusar fornecer armas para Chávez, quando, na verdade, essas armas poderiam colocar os EUA sob perigo direto e forneceriam ao Irã um fator de dissuasão.

Recentemente, José Sarney, um ex-presidente e atual Presidente do Senado brasileiro, ressaltou que a aspiração da Venezuela de se tornar um poder militar regional é preocupante. Mais perigoso para o Brasil e a região será a liderança nuclear de Chávez.

Lula não é só o líder dos pobres brasileiros. Ele foi apoiado por uma boa parte da classe média que muito provavelmente rejeita o comportamento do Brasil. Pesquisas já indicam que a candidata do PT está em terceiro lugar nas intenções de voto para as próximas eleições presidenciais.

Ainda, no seu desejo de se tornar um país influente no mundo, o Brasil está buscando um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Nas circunstâncias atuais o Brasil não merece esse assento a não ser que comece a agir com responsabilidade. Ninguém que tenha uma visão moral e política relativista acerca de indivíduos ameaçadores como Chávez e Ahmadinejad deveria ser aceito na comunidade de líderes mundiais.

Ao contrário, o Brasil deveria superar sua esquizofrenia moral e política e posicionar-se no lado da civilização e da liberdade contra o barbarismo e a opressão do eixo Teerã-Caracas.

*Na verdade, a Teologia da Libertação surge entre certos sacerdotes católicos, mas jamais foi aceita pelo Vaticano.

**Verão no Hemisfério Norte.

*** No dia 15/06/2009 Lula disse em Genebra: “Eu não conheço ninguém, a não ser a oposição, que tenha discordado da eleição do Irã. Não tem número, não tem prova. Por enquanto, é apenas, sabe, uma coisa entre flamenguistas e vascaínos” (Fonte: http://noticias.uol.com.br/bbc/2009/06/15/ult36u46744.jhtm)

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