O Brasil visto de longe e bem de perto

Acabei de voltar de uma viagem de um mês pelo continente europeu. Durante minhas andanças desfrutei de uma perspectiva que considero privilegiada para pensar sobre meu próprio continente e meu país. Gostaria de compartilhar com vocês algumas de minhas impressões.

Primeiro vamos a alguns dados. O Brasil sempre teve a Europa como um modelo. As estruturas sociais, políticas, culturais do velho continente eram tidas como superiores, como algo que deveria ser adotado para garantir o progresso brasileiro. As artes, a arquitetura, as ciências e toda produção intelectual européia era super valorizada e tentar reproduzi-las na nossa terra era uma missão perseguida obstinadamente por nossos artistas e eruditos, quando não importávamos artistas e eruditos de lá para recriar aqui o que faziam no outro lado do Atlântico.

Quando as antigas colônias espanholas se desfragmentaram em pequenas e turbulentas repúblicas, o Brasil se orgulhava por ser um Império relativamente ordenado. Um pedaço da Europa na América liderado por um imperador sábio e ponderado, admirado por ilustres figuras do antigo continente. Uma ilha de calma e progresso cercada por nações corruptas e impregnada pelos males liberais. Nesse cenário de contraste delineava-se aos poucos nossa identidade nacional, projeto que se formalizava com a criação de Institutos, em especial o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) fundado no dia 21 de outubro de 1838. Alguns anos mais tarde o IHGB promoveu um concurso de monografias cujo tema era a seguinte pergunta: “Como se deve escrever a história do Brasil?”. O vencedor foi o alemão Karl Friedrich Phillip von Martius. Teria sido a proposta de Martius a melhor para a empreitada ou o fato dele ser europeu contribuiu para a sua vitória no concurso?

Bom, o registro [ou construção] da história nacional veio permeado com um sentimento muito bem sintetizado por Demétrio Magnoli ou destacar que a elite brasileira via-se como européia.[i] Era urgente adequar os trópicos ao ideal de civilização européia e cristã, e a escrita da história brasileira desempenhou um papel crucial nesse período, assim, fortalecer os laços entre a história brasileira e a história da Europa era algo elementar.

Hoje, no século XXI, essa imagem de certa forma persiste. Não é por acaso que foi necessário uma lei – a 10.639 de 2003 – para que o ensino de história da África fosse obrigatório nas nossas escolas.[ii] Isso porque a história, tanto a ensinada nas escolas quanto a produzida por historiadores, ainda tem como foco principal, e quase exclusivo, a Europa.

Tudo isso contribuiu com a imagem idealizada que mantemos sobre o continente europeu. Interessante notar que tal idealização não é baseada na riqueza econômica européia, mas sim no modelo de civilização lá existente e que ainda consideramos o melhor e superior. Prova disso é que obviamente não nutrimos tanta admiração pelos EUA, mesmo sendo essa a mais rica nação do globo.[iii]

Por certo que essa idealização faz um pouco de justiça. É na Europa que estão as maiores e melhores bibliotecas do planeta, é lá que estão os melhores museus com obras de arte que aqui só podemos ver por fotografias ou em exposições temporárias, infelizmente raras. Na Europa estão edifícios de beleza singular, além da profusão de idiomas e culturas facilmente visitadas graças ao ótimo transporte entre os países e a proximidade das fronteiras. Sim, é um continente que merece uma viagem. Mas será que devemos sustentar nossa síndrome de inferioridade diante deles? Será que somos incapazes de criar algo nosso, sem tê-los como paradigma? São eles realmente superiores? É só o modelo de civilização européia – se é que isso existe – que deve ser adotado para garantir nosso progresso? Tenho sérias dúvidas. E arrisco afirmar que não estamos melhores justamente por ainda acreditarmos na necessidade de importação de valores de lá.

Ora, vivemos em um país singular e que forçosamente se adapta a valores, leis, códigos morais, feitos sob medidas para a realidade distinta das nações européias. Tentar trazer estes elementos e enfiá-los goela abaixo de nosso povo tão diferente, de nossa diversidade tão valorosa, engessa nosso espírito criador e cria uma situação de subordinação ao outro inaceitável!

Enquanto estive lá fiquei incomodada por uma forte sensação. Me parece que a Europa está prestes a entrar em uma profunda crise, cujas conseqüências não sou ainda capaz de avaliar. Não se trata só de crise financeira, mas crise de identidade, crise histórica, crise social. Tive a oportunidade de conversar com cidadãos de diversos países, e em todos os discursos notei um latente pessimismo. Eles estão perdendo as perspectivas, colocam em dúvidas princípios fundamentais que enchiam de orgulho seus ancestrais de dois séculos atrás e eram o motor do crescimento de suas nações. A crise financeira poderá ser a fagulha inicial que estourará um barril de pólvora que cresce invisível há anos. O fortalecimento de grupos de extrema direita ultranacionalistas é uma reação, um sintoma de que algo está muito errado. Sim, sintoma antes de causa…

Lá, não pude deixar de pensar no meu país.

Resistimos de forma exemplar a uma crise que abalou e ainda abala as economias mais poderosas do planeta. Nossa gente caminha de cabeça erguida e otimista, sem pudores ao ostentar nossa bandeira, sem pudores ao cantar as belezas dessa terra, a grandeza desse território. Amar o Brasil não é crime, é orgulho, não somos assombrados pelos males que o nacionalismo levou à Europa pelo simples fato de que nosso nacionalismo não precisa de força e violência, não precisa inferiorizar e dominar outros povos para se afirmar. Somos, como acertadamente diz o hino dessa nação, “Gigantes pela própria natureza”. Não acreditamos ser parte de uma raça superior, pois somos todas as raças, todas as cores, ritmos e sonhos. Uma liderança internacional verde e amarela é o melhor caminho para o planeta, para a humanidade.

Voltei, e tenho a forte impressão de que nós somos o futuro. Não um futuro distante, mas o futuro que desponta agora. Agora, que os valores que tanto valorizamos mostram claros sinais de decrepitude. É hora de rompermos a supervalorização do outro e olhar para o que temos. E temos tudo!

Para assumir nosso lugar é, todavia, essencial que eliminemos as forças atrasadas que ainda governam esse país. Precisamos acabar com figuras como nosso atual presidente, mais preocupado com autopromoção e com a garantia da sucessão que ELE considera melhor do que com os problemas imediatos e sérios que atrapalham esse país. Um homem que, para conquistar seus ideais, não hesita em receber nessa terra, como honras de chefe de Estado, o “presidente” sanguinário do Irã que ordena atiradores de elite a atirarem contra cidadãos iranianos que discordam do regime. Um homem que dá amigáveis tapinhas nas costas dos irmãos Castro, responsáveis por afundar Cuba na mais profunda estagnação, por solapar a liberdade de imprensa e por promover a prisão e morte de dissidentes políticos, leia-se, pessoas corajosas o suficiente para denunciar a sujeira da ditadura castrista.[iv] Um homem que bate palmas para as loucuras de Hugo Chávez e seus lacaios. Um homem sem dignidade e moral, que faz alianças e protege corruptos notórios, como José Sarney, tão-somente para garantir aliados que promoverão a eleição de sua subordinada.

Precisamos promover uma mudança radical na estrutura político-administrativa do Brasil, invadida por marginais engravatados que roubam dinheiro público sem pudores, certos da impunidade. Bandidos com ternos caros que fazem vistas grossas ao crescimento dos lordes do tráfico num vergonhoso trato de cafajestes, onde canalhas entram em um sinistro acordo: não prejudicar seus iguais.

Precisamos acabar com políticas públicas que protegem a inércia e preguiça, que transforma pessoas em bezerros famintos pelas tetas do Estado, distribuidor farto de bolsas-misérias analgésicas e criadoras exemplares de currais eleitorais que perpetuam no poder velhos bandidos.

Amigos e amigas, essa é a hora. Assumam com orgulho a cidadania brasileira, estejam certos de que prevaleceremos quando limparmos a lama do nosso quintal! Essa é a hora de agir!

Dicas de Link

Visite a página do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro cheio de informações e documentos históricos de interesse.

A página da Revista Pesquisa Fapesp é também uma ótima dica. Essa é, na minha opinião, a melhor revista de divulgação científica do Brasil. Nessa página você encontrará artigos, entrevistas, resenhas e diversos materiais de qualidade sobre vários assuntos, desde etanol até história antiga. A Revista também está disponível em versão impressa e é possível fazer uma assinatura pelo próprio site.


[i] MAGNOLI, D. O corpo da pátria. Imaginação geográfica e política externa no Brasil (1808 – 1912). São Paulo: Editora Unesp, 1997.

[ii] Leia aqui o interessante artigo da professora Monica Lima sobre a lei 10.639.

[iii] Essa desconfiança que mantemos sobre os EUA apresenta-se também nas relações internacionais entre os dois países. Leia aqui um bom artigo sobre o tema publicado pela Revista Fapesp.

[iv] Leia a reação de dissidentes cubanos à visita de Lula a Cuba logo depois da morte de Orlando Zapata aqui

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    • Ari
    • 2 de março de 2010

    Obrigado, Verônica, pelas notícias e pela coragem de propor e de se expor. Realmente, não é hora de se omitir. Creio que temos duas opções: ou ajudamos a sustentar uma transição, que trará muito desgaste a quem a administrar (merecidamente, aliás), ou seremos levados pelas águas do rompimento dos diques (da institucionalidade).
    Ou seremos investidores do desejável, preservando distâncias, ou nos engajaremos no necessário, já com o nosso tempo não mais nos pertencendo.
    São poderosos os alinhamentos que nos solicitam. Tão poderosos que deles só podemos escapar utilizando a força de um outro alinhamento; que este seja, então, um de nossa própria escolha.

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