O crime das cotas

Nesse momento ocorre o segundo dia da audiência pública sobre as cotas de vagas nas universidades convocada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Ricardo Lewandowski. O STF parece já ter tomado sua decisão, e tudo leva a crer que ela será favorável às cotas. Ricardo Lewandowski nem se preocupou em esconder a parcialidade dos ministros, basta observar que a maior parte dos participantes da audiência são a favor das cotas. Enquanto isso os opositores estão sofrendo um enorme massacre da mídia. Ontem a Folha de São Paulo noticiou que o DEM responsabilizou os africanos pela escravidão. Nem precisava ir muito além da notícia para perceber que a Folha de São Paulo distorceu deliberadamente as palavras do senador Demóstenes Torres. O que o senador falou, e falou corretamente, é que existia um intenso mercado de escravos na África promovido pelos próprios africanos, e isso antes mesmo do envio massivo de escravos para as Américas. Completo: muitos dos escravizados mandados para as Américas foram vendidos aos europeus pelos próprios africanos. Ao contrário do que os defensores das cotas dizem, essa história, como todas, não está dividida entre inocentes e bandidos. Nenhuma boa intenção justifica mentiras e manipulações com as que são promovidas pelos pró-cotas.

Aliás, mesmo nem com muita boa vontade os argumentos dos pró-cotas mostram alguma sensatez.

Quando eu prestei o vestibular era o primeiro ano das cotas na UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro). Os critérios não poderiam ser mais superficiais: dentre os beneficiados pelas cotas estavam os pardos. Pardos? Mestiços, certo? E quem não era mestiço no Rio de Janeiro!?! Foi ao responder o formulário de inscrição da UERJ que pela primeira vez na minha vida me declarei branca.[i] Os opositores às cotas insistem nesse ponto, e não posso deixar de concordar com eles pela minha própria experiência: as cotas fortalecem uma identidade de raça que no Brasil é muito difusa, isso pode sim gerar tensões raciais até então praticamente inexistente nesse país. Sim, foi no vestibular da UERJ que pela primeira vez me declarei branca, e senti o que isso poderia significar em termos práticos na minha vida. Será que os favoráveis as cotas realmente acreditam que isso não gerará qualquer conseqüência significativa?

As questões desse debate são muitas, citei um exemplo somente. O que gostaria de colocar aqui é um ponto que até então foi pouco discutido.

Ouvi muitos defensores das cotas, desde o presidente até o “revolucionário” do movimento estudantil, afirmarem que as cotas são importantes para promover a ascensão social dos negros e pobres desse país. Vejam, essas pessoas distorcem o sentido da universidade. Universidade não pode ser vista como “escada social”! Universidade é um lugar de produção de conhecimento, acima de tudo! Antes de qualquer coisa! O abandono desse sentido em prol da idéia de universidade como promotora de sucesso financeiro, ascensão social, é a principal causa da decadência de nosso ensino superior! Universidade cada vez mais é vista como formadora de técnicos altamente especializados em temas pertinentes à indústria, ao desenvolvimento econômico. Estamos perdendo os espaços de pesquisa! Estamos perdendo as grandes reflexões, os essências debates metafísicos, abstratos! Esses bens da humanidade que formam toda estrutura da sociedade moderna estão sendo esquecidos por essa laia de ignorantes. A perda do conhecimento, do esforço por conhecer, substituído pelo esforço de produzir, será o maior crime contra a humanidade da história. Sem essa curiosidade movida apenas pelo ímpeto de aprender, de desvendar, de ter ciência, perderemos o que faz de nós humanos! Esse é o maior problema das cotas: seus princípios mais profundos e menos debatidos que distorcem e destroem o valor do conhecimento.


[i] Não, eu sou mestiça mesmo, sempre me considerei mestiça (mulata clara, segundo uma pessoa muito querida) mas minha pele é branca. Eu poderia ter marcado a opção “parda”, e nesse caso concorreria pelas vagas especiais, coisa que muita gente fez. Mas como sabemos no Brasil a definição de “raça” é baseada na cor da pele, ao contrário dos EUA, onde o critério privilegiado é o da origem.

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    • Ari
    • 5 de março de 2010

    O caso específico da Verônica me faz antecipar a futura demanda por um refinamento do sistema de cotas. Pois não faltam e não faltarão argumentos que aleguem os diferenciais de tratamento, oportunidades e inserção social que existiram entre os negros e os mestiços. Indo um pouco além, que tal os mulatos claros requererem isonomia com os brancos?

    Verônica, eu dei uma vasculhada no meu HD mas não pude encontrar, para te mostrar, um exemplo concreto daquilo a que me referi outro dia como o “labirinto regulatório” do welfare state. Mas pode acreditar que o espírito é exatamente o mesmo. Os caras produziram um contorcionismo legal, risível de tão rebuscado (e mais ainda pela seriedade de sua loucura), para fazer compensações individuais (e não mais grupais), em nome da igualdade de oportunidades. As variáveis da equação compensatória eram tantas que certamente tiveram que criar um novo departamento burocrático para dar conta da nova atribuição estatal…(atingindo assim aquilo que talvez fosse o real objetivo almejado).
    Já é antiga essa história, não?

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