Um Islã peculiar

Sou formada em história, isso significa que sou basicamente uma profissional da leitura. Um historiador deve ser erudito, ter ótima sensibilidade interpretativa e deve escrever bem, afinal, um bom texto de história se caracteriza mais por argumentos convincentes do que por provas irrefutáveis. Óbvio que estou longe da erudição e desenvoltura de mestres como Theodor Mommsen, Henri Pirenne, Fustel de Coulanges, José Murilo de Carvalho e outros monstros da historiografia, mas nos meus poucos anos de experiência aprendi algo salutar: generalizações são tecnicamente essenciais no processo do conhecimento, mas se feitas de forma muito arbitrária “emburrecem”.

É o que acontece com a visão comum que existe sobre o Islã. Um pouco pela atuação dos radicais e muito pela mídia imbecil, o Islã é tido como uma religião violenta, repressora e com alto potencial de colocar em risco a segurança mundial. Sim, radicais muçulmanos representam um perigo real, principalmente quando estão no governo, Ahmadinejad está aí para provar isso. Mas o Islã está longe de ser uma religião coesa, na verdade, estou tentada a acreditar que o termo “islamismo” qualifica uma variedade tão grande de crenças fundamentadas no Corão como o termo “cristianismo” unifica uma profusão de interpretações – muitas vezes divergentes – baseadas na Bíblia. Ou seja, cristianismo não é religião, é um vocábulo que qualifica várias religiões que acreditam no Cristo; o mesmo vale para o islamismo, mas nesse caso a figura central é o Profeta Maomé (Mohamad).

Minhas suspeitas se confirmaram quando abri o caderno da Folha de São Paulo que traz matérias do The New York Times traduzidas. Havia um artigo sobre o sufismo, uma forma mística do Islã que eu não conhecia. Grande surpresa! O sufismo prega a igualdade, inclusive entre homens e mulheres que podem freqüentar com idêntica liberdade os templos religiosos. A cerimônia também difere muito da idéia que temos das mesquitas. Os sufis cantam, dançam ao som dos tambores e utilizam substâncias narcóticas durante o ritual.

Numerosos no Paquistão, os sufis sofrem com a perseguição do governo, cada vez mais radical e intolerante em sua interpretação do Corão. A ortodoxia do Paquistão foi estimulada na década de 1980 pelo ditador Muhammad Zia ul Haq, amplamente apoiado pelos EUA. Desde então todas as versões moderadas do Islã foram condenadas a marginalização e ao constante medo de ataques. Opositores da violência propagada pelos fundamentalistas, os sufis sofrem duplamente: dentro de seu país e fora dele, onde o estigma do terrorismo é carregado por todos os muçulmanos. De acordo com Naeem Ashraf Rizvi, paquistanês seguidor do sufismo: “os sufis não espalham o terrorismo. Nós somos suas vítimas. Estamos condenados a violência, mas ninguém está nos ouvindo”. Mesmo nesse cenário inóspito o sufismo sobrevive e ainda atrai fiéis, resta saber até quando.

O Talibã cresce sem dificuldades no Paquistão, um país com um governo também radical e ineficiente no combate ao terrorismo. Desde 2001 atentados terroristas crescem em ritmo vertiginoso e ceifam vidas inocentes, enquanto o país caminha por um terreno perigoso que pode fazer dele um novo Afeganistão. Está assim ameaçada a alegria dos tambores e danças dos sufis.

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    • Ari
    • 11 de março de 2010

    Subsídios ao assunto, para minha amiga historiadora:
    http://fiel-inimigo.blogspot.com/2009/12/paz-na-terra-aos-homens-de-boa-vontade.html

    Li uma vez um ensaio fantástico intitulado “As fronteiras sangrentas do Islã”. Vou tentar localizá-lo para você.

    Abraço

    • Ari
    • 11 de março de 2010

    Não achei, V. Não é o do Samuel Huntington, que também se refere à expressão. Estava num site antigo, português, especializado em Relações Internacionais; havia nele uma lista de assuntos, onde cada linha era precedida de um ícone a ele referido.

    Mas encontrei algo que deve te interessar. À época, tomei conhecimento do assunto só por alto, e não domino o inglês…
    Bom proveito.
    http://articles.latimes.com/2009/oct/17/opinion/oe-morrison17

      • vvsilver
      • 12 de março de 2010

      Do Samuel Huntington eu conheço o “choque das civilizações”, bom trabalho! Há também um contraponto ao estudo do Huntington, é do Edward Said “Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente”, não tão bom, mas vale a pena dar uma olhada. Tenho algum material pois estudei o Islã no século XX na época da graduação. Essa é uma questão muito complicada mesmo!!! Obrigada pelos links! Vou dar uma olhada para debatermos 😉

    • Ari
    • 12 de março de 2010

    Mais uma referência; quem mandou você tocar num assunto tão quente?
    http://o-lidador.blogspot.com/2009/03/mapas-do-islao.html

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