A LIBERDADE NUA

O século XX experimentou uma verdadeira revolução nos hábitos sexuais de grande parte do mundo Ocidental. A pílula anticoncepcional diminuiu drasticamente as possibilidades de uma gravidez indesejada, o amor livre da década de 60 colocou na berlinda muitos dogmas acerca da sexualidade e promoveu uma verdadeira liberalidade de costumes relativos ao corpo e ao prazer. Os movimentos feministas conquistaram muitos direitos para as mulheres, inclusive direitos íntimos, ou nem tanto. Divórcio, bebês de proveta, aborto legalizado em alguns países, revistas de conteúdo erótico explícito ou não, cinema, televisão, novelas, jornais, gibis, aulas de educação sexual, nunca antes o sexo esteve tão exposto, nunca foi tão debatido e sua prática tão estimulada. Transe com muitos parceiros e fale sobre isso na internet ou em algum programa de TV moderninho, sexo é cool, faça. É o retorno da confissão pública sem o ônus da penitência… será?

Passado um pouca da euforia do vale e tudo e seja livre e feliz veio a cobrança. Disseminação de doenças sexualmente trasmissíveis tornaram-se cada vez mais comuns nos noticiários, até aparecer com toda a força o HIV, ceifador de vidas anônimas e célebres, virou o protagonista. A juventude de meados da década de 80 e início da 90 viu seus ídolos serem levados um a um. Cazuza, Renato Russo, Rock Hudson, Gia Carangi, os heróis não morriam mais tanto de overdose e sim de uma vírus misterioso que arrasava o sistema imunológico.

Vamos dar uma pausa? Vamos repensar esse lance de liberdade sexual? “Não! Façam sexo, mas com camisinha, assim pararemos o avanço da epidemia mortal”. A epidemia, todavia, está firme e forte levando pessoas insuspeitas. Não só gays promíscuos, mas donas de casa exemplares, atualmente o grupo da população brasileira que mais cresce nas estatísticas sobre o avanço do HIV.[i] Não acreditem do Dourado, nem tudo o que queremos ouvir é o mais sensato.

O que deu errado, afinal? Porque o “Plano Camisinha” não está dando tão certo? Especialistas discutem a miséria da pós-modernidade e a acusam pelo mal do século passado e o atual. “A culpa é do Papa que disse para não usar camisinha”, dizem uns… ora, como se todos guiassem suas vidas pelas recomendações papais! A culpa não é da Igreja, nem de seu Sumo Pontífice, tampouco da ira divina. O atual Papa, Bento XVI, inclusive foi malhado depois de sua última visita à África quando colocou em dúvida a eficiência dos programas de distribuição de camisinhas no combate ao HIV. Sou longe de ser fã do Bento XVI, mas a notícia que veicularam estava, como sempre, incompleta. O Papa disse que a redução drástica no número de parceiros era a forma mais segura, barata e eficaz no combate à epidemia de HIV que é muito alarmante nos países africanos. Estava o papa errado? E tomo essa pergunta emprestada do pesquisador Senior em saúde pública e notório especialista em combate ao HIV, Dr Edward C. Green.

O Dr Green,[ii] que fala sem o peso da fé e com a autoridade de um cientista, defendeu Bento XVI ao afirmar que políticas de educação referentes ao comportamento sexual, com estímulo à manutenção de parceiros fixos, foram muito mais felizes na África do que a distribuição de camisinhas. Segundo Green:

A raíz do problema é que as pessoas não usam camisinhas de forma consistente, não importa o quanto elas forem promovidas. Um pouco de uso de camisinha deve ser como um pouco de uso de antibióticos – não ajuda em última análise.[iii]

Em Uganda, o governo adotou a estratégia da promoção da abstinência e da fidelidade e os resultados foram animadores. Uganda atingiu uma redução do número de infectados singular frente as estatísticas de outras nações africanas.[iv] O país, palco de tantos massacres, foi capaz de enfrentar muito bem um dos maiores males que doutores de ricos países desenvolvidos ainda quebram a cabeça para apresentar uma solução real. E o fizeram indo na direção contrária aos adorados valores da “liberdade” promovidos pelos mudérnos do Ocidente. Já não é hora de refletirmos também sobre essa idéia de liberdade e felicidade intimamente ligadas ao número de parceiros sexuais? Já não é hora de pararmos de cultuar o sexo livre e indiscriminado como um dos melhores valores do século passado? O preço já não está alto demais? Vamos pensar sobre a possibilidade de vestir a liberdade?


[i] AIA, Christiane; GUILHEM, Dirce  and  FREITAS, Daniel. Vulnerabilidade ao HIV/Aids de pessoas heterossexuais casadas ou em união estável. Rev. Saúde Pública [online]. 2008, vol.42, n.2, pp. 242-248.  Epub Feb 29, 2008. ISSN 0034-8910.  doi: 10.1590/S0034-89102008005000004.

[ii] Sobre Edward Green: http://www.harvardaidsprp.org/faculty-staff/edward-c-green-bio.html

[iii] GREEN, Edward C. & HEARST, Norman. Was de Pope wrong? The Lancet, v.373, issue 9675, p.1603. Maio de 2009. Disponível em: http://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(09)60902-8/fulltext?_eventId=login

[iv] Veja a notícia aqui: http://tinyurl.com/25dmwjj

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  1. Olá Vvsilver!
    Gostei muito do texto. Liberdade é muito mais fácil de falar,do que viver, pois requer uma maior parcela de responsabilidade. E em se falando de sexo, que tem muitos motivos para que o queiramos fazer, além de um apelo indiscutível, que é o fato de ser “gostoso”, a atitude por demais “livre” de preconceitos, de normas, de cuidados, fica perigosa!
    Portanto,não posso dizer que eu seja à favor desta liberdade descuidada e por vezes, irresponsável. Contudo,não sei indicar soluções,mas acredito que escolher o parceiro é o melhor. Talvez eu acredite que neste caso, fazer sexo com alguém que a gente ama e confia,ou admira e confia,fosse a solução, embora precisemos contar com o mesmo comportamento do parceiro e,mesmo neste caso, o uso de camisinha tem sua indicação. A gente pode se habituar a ela de tal modo, que não serve a desculpa de falta de sensibilidade…não é isto que cria problema. O problema maior, acho que ainda é o fato da mulher ter em sua mente,como resultado de um mundo machista,a crença que “ela” deve fazer de tudo para agradar ao seu homem, ou ao homem de modo geral. Então, acho que também é por aí, pela educação da sociedade visando valorizar o que é de mais valia.
    Sexo ainda é a forma pela qual muitas mulheres se sentem amadas e, por isto, serão menos exigentes quanto ao cuidado que deveriam tomar.
    Sem dúvida,acho ótimo que possamos discutir hoje tais assuntos,seja em programas como o da Ophra ou internet, e penso que liberdade e sexo “indiscriminado” não combinam, pois liberdade é exatamente poder “escolher” entre muitas opções, o que mais nos convém.
    gostei de estar aqui participando deste post.
    Abraço,Vera.

      • vvsilver
      • 10 de maio de 2010

      Obrigada, Vera! Você compreendeu muito bem o que eu quis dizer e acrescentou ótimas contribuições ao texto.
      Abraços, Verônica.

    • shirley
    • 10 de maio de 2010

    Concordo que a igreja de Bento ,com sua sabedoria de muitos seculos,apesar dos enganos, sujere o obvio.Restricao sexual nos mantem longe de diversos problemas,com certeza.Mas a sexualidade dos africanos eh bem diferente da do ocidente.As mulheres na maioria das tribos, ou islamicas nao teem clitoris,mesmo.O sexo mais praticado la eh o anal.Pesquise que o debate rende.Nao posso me estender aqui, mas esse eh quase o X do problema…

      • vvsilver
      • 10 de maio de 2010

      Olá Shirley,

      A clitorectomia (retirada do clitóris) na verdade é comum em algumas regiões da África, não em todo continente. Mesmo assim, essa prática não necessariamente estimula o sexo anal, uma vez que o objetivo da clitorectomia é justamente eliminar o prazer feminino completamente.

      Mas de fato, o sexo anal é uma prática de maior risco de contágio pelo HIV, mesmo assim não é a mais comum e estimulada entre muitas etnias africanas, marcadas pela forte normatização do sexo.

      Você tem razão ao chamar a atenção para a diferença entre os hábitos sexuais dos africanos e dos ocidentais. Inclusive, alguns especialistas apontam para o fato de que a pouca eficácia da distribuição de preservativos como estratégia de prevenção ao HIV deve-se justamente a essa peculiaridade da sexualidade das populações africanas. Estudiosos como o citado Green defendem que diante dessa diferença a política de estímulo à redução de parceiros acaba sendo mais útil para a África do que a importação de políticas ocidentais.

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