E COMO PREVALECEREMOS

Dia 20 de junho de 2010, o Brasil comemorava a vitória da seleção contra a Costa do Marfim enquanto um grupo de jovens se envolvia em uma discussão em São Gonçalo/RJ. Alguns deles foram até uma delegacia e registraram queixa por agressão. Voltaram para a festa, entre eles estava um jovem de 14 anos, um moço chamado Alexandre Thomé Ivo Rajão. Sim, 14 anos e todos os muitos sonhos e projetos típicos dessa idade tenra e cheia de emoções. Uma vida cheia de promessas de um menino que no alto de seus quatorze anos já sabia que tinha um grande compromisso, ser atuante na militância LGBT para conquistar um mundo mais justo e pacífico para todos nós. Lá estava o bravo Alexandre Ivo, que na madrugada depois do jogo encontraria seus três algozes, três monstros covardes anos mais velhos do que o Alê.

Os três homens e suas cabeças rapadas por fora e por dentro encontraram o menino Alê sozinho em um ponto de ônibus, o levaram para alguma parte inóspita de São Gonçalo e torturaram Alexandre até a morte. Até interromperem a vida luminosa do Alê… motivos? A homossexualidade do corajoso Alexandre.

Guardem bem essa informação, três animais pelo menos oito anos mais velhos do que o menino de 14 anos o pegaram e o espancaram covardemente até mata-lo, sim, três contra um. COVARDES, assassinos covardes que acharam que provariam suas masculinidades, suas machezas, espancando um menino de 14 anos.

Alexandre Thomé Ivo Rajão era um estudante dedicado, um menino tranquilo e adorado pelos muitos amigos. Um menino exemplar que foi vitimado pela homofobia, intolerância e preconceito dos três mamutes, sim, mas também do Júlio Severo – aquele que diz que somos menos humanos por sermos homossexuais – Olavo de Carvalho – aquele que diz a mesma idiotice que o Severo, mas com textos cheios de termos em latim para disfarçar sua ignorância crônica – Silas Malafaia – o pastor superstar vendedor de milagres e arauto da moralidade que, vejam, fala a mesma porcaria que Severo e Carvalho – Marcelo Crivella – o pastor senador de fala mansa, amizades com traficantes e, não se surpreendam, a mesma ladainha de Severo, Carvalho e Malafaia – Carlos Apolinário – Vereador corrupto e propagador da cortina de fumaça do moralismo barato e da alucinação da existência do “gayzismo” e… bem, as mesmas imbecilidades de Severo, Carvalho, Malafaia e Crivella. Essa lista poderia crescer muito ainda, ah sim… poderia. Mas deixe-me dizer muito bem o que quero dizer: SEVERO, CARVALHO, MALAFAIA, CRIVELLA e APOLINÁRIO têm tanto sangue nas mãos quanto os tongos mongos acéfalos, brutalizados e bestializados três “machões” que assassinaram o jovem e corajoso Alexandre Ivo.

Sim, o bonde cego de Severo, Carvalho, Malafaia, Crivella, Apolinário e seus seguidores igualmente dementes, com seus discursos homofóbicos, com suas intransigências disfarçadas de iluminação divina, com suas verborragias de ódio, preconceito covardemente, loucamente, idiotamente travestidas do “odeio o pecado, não o pecador”, ao apontarem seus dedos iníquos, sujos, malditos, para os homossexuais, bissexuais, transexuais e travestis e nos disserem “pecadores” dão suas sentenças porcas e o aval que os muitos brutamontes acéfalos necessitam para nos espancar, humilhar, matar.  

São muitas histórias como a de Alexandre Ivo, muitos jovens – moços e moças – que têm suas vidas interrompidas pela verborragia macabra e odiosa da laia de Severos, Carvalhos, Malafaias, Crivellas, Apolinários… que no alto de seus púlpitos condenam milhões de vidas mediante suas repetições enfadonhas e incansáveis de trechos de horror meticulosamente extraídos da Bíblia e de qualquer outro escrito tão odioso, macabro e maldito que saia da boca de pseudo-sábios e pseudos tantas coisas que a despeito de qualquer razão, lógica, sensibilidade, apenas comprovem suas idéias BURRAS. São muitas histórias com desfechos trágicos, que se desenrolam no teatro sombrio da aceitação cega das palavras de “líderes”, tão certos de sua superioridade BARATA e assassinos de crianças e jovens. Que não saiam impunes, os três brutamontes e os provedores de suas idéias!

São muitas histórias, como a do jovem Bobby Griffith que aos 19 anos saltou de uma ponte depois de ouvir insistentemente de sua mãe, de seus pastores, de sua família, da sociedade, que ele não merecia qualquer consideração, que não era digno de amor e respeito, pois era GAY. A Mãe de Bobby, Mary, precisou perder o filho para se dar conta de todo o erro, de toda ignorância, de toda estupidez, que tirou de Bobby a esperança e a vida. Mary tornou-se uma ativista da causa LGBT e fez um belíssimo discurso, interpretado brilhantemente por Sigourney Weaver. Transcrevo:

Eu arrependo-me profundamente da minha falta de conhecimento sobre gays e lésbicas. Vejo que tudo o que me ensinaram e disseram era odioso e desumano. Se eu tivesse investigado além do que me disseram, se eu tivesse simplesmente ouvido o meu filho quando ele me abriu o coração… não estaria aqui hoje, com vocês, cheia de arrependimento. Eu acredito que Deus estava contente com o espírito gentil e amável do Bobby. Aos olhos de Deus, gentileza e amor são tudo o que importa. Eu não sabia que, cada vez que eu ecoava a condenação eterna aos gays… cada vez que eu me referia ao Bobby como doente e pervertido e perigoso às nossas crianças… a sua autoestima, o seu valor próprio, estavam a ser destruídos. E, finalmente, seu espírito quebrou-se para além de qualquer conserto. Não era o desejo de Deus que o Bobby se debruçasse sobre o muro de uma ponte, e pulasse diretamente no caminho de um caminhão de dezoito rodas que o matou instantaneamente. A morte de Bobby foi o resultado direto da ignorância e do medo dos seus pais quanto à palavra gay. Ele queria ser escritor. As suas esperanças e sonhos não deviam ter sido tirados dele, mas foram. Há crianças, como o Bobby, sentados nas vossas congregações. Desconhecidos de vós, elas estarão a escutar, enquanto vocês ecoam ‘Amém’. E isso depressa, silenciará as suas preces. Suas preces para Deus por compreensão, e aceitação, e pelo vosso amor. Mas o vosso ódio, e medo, e ignorância da palavra ‘gay’, irão silenciar essas preces. Por isso… antes de ecoarem ‘Amém’, na vossa casa e local de adoração, pensem! Pensem e lembrem-se: uma criança está a ouvir.”

São muitas histórias, como a de Matthew Shepard, rapaz que em 1998, aos 21 anos, foi torturado barbaramente por dois homens e deixado sozinho e agonizando numa noite com temperatura abaixo do zero grau. Encontrado em coma por um grupo de ciclistas, Matthew faleceu cinco dias depois no hospital. Histórias como a de Anna, que não suportou a recusa da mãe em aceita-la – pois a Bíblia dizia que aquela mãe não podia aceitar a própria filha – e cometeu suicídio aos trinta anos.

Ou como do menino brasileiro Iago Marin, que tirou a própria vida aos 14 anos:

 E tantas outras histórias, tantas:

Histórias que ocorrem tanto no nosso país terceiro mundista quanto no mundo rico e limpo do Norte. Histórias como a de Larry King, morto aos 15 anos por ter convidado um amiguinho para ser seu par no baile da escola; como a de Eudy Simelane estuprada e morta na África do Sul por ser lésbica; com a de Suélia Costa, vítima aos 27 anos de uma emboscada que lhe tirou a vida em Porto Seguro. Como a de Alexandre Ivo, assassinado aos 14 anos enquanto os brasileiros dormiam satisfeitos depois da vitória da seleção. Vitória da seleção, mas derrota do Brasil, derrota da humanidade, de nossa civilização…

Nosso país, nossa humanidade, nossa civilização, que mata, humilha, estupra, tortura e condena seres humanos pelo simples fato de não amarem conforme dizem que devemos amar. Se nosso amor não  mata, porque deve ser usado como justificativa para nos matarem? Se nosso amor não fere, porque pode ser usado como motivo para nos ferirem? Se nosso amor nos faz tão felizes, tão plenos, porque devemos aceitar que Severos, Carvalhos, Malafaias, Apolinários, Crivellas, Maltas, do Brasil e do resto do mundo nos condenem? Acusem-nos, digam que somos pecadores, sujos, infiéis, que queimaremos no fogo no inferno e que devemos viver como ELES acham que devemos viver? Por que devemos permitir que essa gente vocifere seu ódio e intolerância e alimentem o ódio e intolerância dos outros, e que esses outros se sintam no direito de nos matar, humilhar, estuprar, torturar, acusar e condenar? Os que alimentam o ódio têm as mãos tão sujas de sangue e culpa quanto os que executam o ódio!

Chega! Basta! É o fim da linha! É o fim da linha deles! Precisamos virar esse jogo! Precisamos impedir que Severos, Carvalhos, Malafaias, Crivellas, Apolinários continuem com suas campanhas de ódio, suas campanhas que caiem bem nos ouvidos de covardes, brutamontes e assassinos que atacam Alexandres, Iagos, Matthews, Larrys, Eudys, Suélias, Annas, tantas pessoas e tantas histórias vítimas da intolerância, preconceito, medo, solidão, desesperança…

É hora de substituirmos enterros por resistência, dor por bravura, medo por coragem, solidão por união!

Que as mortes de tantos Alexandres, Iagos, Matthews, Larrys, Eudys, Suélias e Annas nos mantenham atentos e despertos, prontos para reagir. Que essas mortes se convertam na energia que precisamos para vencer o ódio. Na força que precisamos para neutralizar os agentes do preconceito, intolerância e covardia! Na união que precisamos para que a COVARDIA, INTOLERÂNCIA E PRECONCEITO SEJAM DEFINITIVAMENTE DERROTADOS. O jogo continua, amig@s! Nós prevaleceremos sobre a barbárie! Vamos deixar orgulhosos todos os Alexandres, Iagos, Matthews, Larrys, Eudys, Suélias e Annas que partiram e que ainda virão… virão, para não mais morrer nas mãos de covardes, mas viver numa sociedade mais justa e pacífica. Eles contam conosco!

Que a beleza, ternura, bondade e temperança prevaleçam: 

Originalmente publicado em saphonia.wordpress.com

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    • Ari
    • 25 de junho de 2010

    Queridas, vocês estão com a sensibilidade à flor da pele. Gostaria que se sentissem em paz, quando a paz for possível…
    Para nós, humanos, os sentimentos são avassaladores, realmente nos transportam. Alguns de nós encaram até a morte de peito aberto, apoiados apenas neles. Outros conseguem, com eles, produzir nossas mais belas páginas.
    Como esta, de Beto Guedes, em “A página do relâmpago elétrico”:

      • vvsilver
      • 26 de junho de 2010

      Sim, estamos bastante sensibilizadas pelo ocorrido, isso que não foi um evento isolado, um acaso, mas fruto de uma campanha sistemática de criminalização de pessoas inocentes.

      Minha mãe me ensinou que a coisa mais importante é o respeito. Nunca apanhei, fui criada justamente com respeito e é com respeito que trato as pessoas, todas. É triste, deprimente, ver que a recíproca não é verdadeira. Estou farta de ser ofendida, de ter dedos me apontando, me julgando e condenando. Sou extremamente solidária a dor desses jovens e de suas famílias, chega uma hora que não suportamos mais e explodimos.

      Obrigada pela bela canção!

      Abraços,
      Verônica

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