A ditadura da fé

Sempre hesitei falar de religião, a não ser quando sou incomodada por algum teísta que tenta me forçar a aceitar suas crenças. Poucas coisas me irritam tanto quanto Testemunhas de Jeová que batem às nossas portas domingo de manhã para pregar a palavra que eles consideram de Deus. Se eu quiser ouvir esse tipo de coisa não faltam igrejas! Acho um abuso alguém ir de casa em casa, violar a calma de nossos lares, para pregar. Acho um desrespeito alguém gritar em ônibus, metrôs e trens trechos bíblicos, violando o direito seguirmos nossas viagens em paz. É uma invasão, uma violência. Já não bastam as rádios cristãs? Os horários nas grades de redes televisivas – que são concessões públicas – ilegalmente vendidas para toda sorte de igrejas com promessas charlatães de curas milagrosas e riquezas fáceis? Já não bastam as milhares de igrejas que desfrutam de todo o tipo imaginável e inimaginável de incentivo fiscal e benesses públicas que bradam seus hinos e louvores nos mais absurdos decibéis? Ainda temos que engolir essa gente na porta de nossas casas domingo de manhã? No transporte coletivo e nas praças de nossas cidades?

A crença dos outros me incomoda nesse sentido. Incomoda mais quando os vejo tentando impor suas leituras bíblicas em nossas casas legislativas, executivas e judiciárias. Incomoda-me quando querem que sua fé – algo de âmbito privado – seja base deliberativa do Estado – cuja obrigação é velar pela coisa pública. É engraçado como sempre tem um pastor ou padre para dar pitaco sobre tudo: desde pesquisas com célula-tronco até economia doméstica. Diabos! Por que temos que consultar um senhor com a Bíblia sob o sovaco quando precisamos decidir sobre lei de biossegurança? Que formação técnica eles têm para versar e opinar sobre isso? O livro da Gênese que diz que tudo foi criado em seis dias e há poucos milênios? O Deuteronômio que diz que as mulheres menstruadas ficam impuras e que um filho desobediente deve ser morto? Ou a idéia estapafúrdia que a vida e tudo o mais têm aproximadamente seis mil anos, algo que contraria as evidências óbvias da idade geológica desse planeta, só como exemplo, e os fósseis que comprovam irrefutavelmente a genialidade da Evolução? Prezados, se vocês tomam remédios, se foram operados da apendicite, se voam em aviões super modernos, se andam de carros e refletem sobre a ocupação humana nas Américas isso é graças à ciência. São cientistas – e incluo aqui profissionais das ciências “naturais” e “humanas” – as pessoas aptas a dar as opiniões mais seguras e confiáveis sobre biossegurança e, por exemplo, abrangência de leis sobre liberdade religiosa. Por quê? Porque eles estudam, pesquisam e debatem, não simplesmente leram na Bíblia e crêem que é assim que Deus quer.

E já que esses religiosos violam meus direitos ao tentarem impor suas crendices a todo o meu país, eu acho que é mais do que hora de reagir. Pouco me importaria se eles rezassem em seus templos e dissessem para seus cordeiros como eles devem pastar, mas esse não é o caso. Eles querem nos dizer com quem e como devemos dormir, como devemos nos vestir, que músicas podemos dançar e em quem devemos confiar… e para eles, adivinhem? É neles que devemos confiar. E como fazem? Invadem nosso Congresso, pressionam todas as instâncias de nosso governo, tomam o Supremo Tribunal Federal, dominam os meios de comunicação e nos ameaçam com a danação eterna.

Sempre hesitei falar de religião por respeito à fé alheia, mas a partir do momento que alguns religiosos desrespeitam meu direito de não acreditar em suas crenças e em não querer seguir seus preceitos, ah sim, é preciso falar de religião. E se você pensa o mesmo, não se cale!

Douglas Adams, um carinha muito bacana e que faz falta, fez um discurso em 1998 no qual tratou de algo bastante interessante. Como bem falou Adams, o bom da ciência é que as hipóteses são colocadas à prova, elas são debatidas, testadas e se não funcionam simplesmente são abandonadas. O mesmo não vale para a religião, a religião tem dogmas, princípios que não podem jamais ser questionados. Podemos debater sobre política, sobre economia, sobre a vida pessoal de Darwin, mas sobre religião não! Eu posso discordar da sua idéia sobre democracia, posso falar que seu jeito de vestir é horroroso e que seu amor pelo Lula é lastimável, mas jamais posso questionar sua fé. Esse tabu, esse medo de ferir os corações sensíveis dos crentes geram danos difíceis de mensurar. É baseado nisso que pastores e padres mal intencionados esbravejam seus preconceitos sem barreiras. Se eles dizem “é assim que diz minha religião”, calamos a boca e dizemos “Ah, então eu respeito”. Então devemos respeitar o “direito” de ofender, humilhar e condenar porque faz parte da fé deles? Devemos respeitar que eles batam às nossas portas domingo pela manhã, que nos imponham suas idéias sobre os direitos de células congeladas ou façam escândalo no metrô quando desejamos ouvir Handel? Devemos respeitar o fato de eles influenciarem nas leis de nosso país na tentativa de impedir que todos tenham os mesmos direitos, já que assim diz a Bíblia? Estou certa que não… vamos então sair do armário e falar de religião.

Anúncios
    • Ari
    • 29 de junho de 2010

    Pôxa, você só faz pergunta difícil!…

    São várias as cosmogonias, as definições da estrutura da realidade. Algumas, extremamente requintadas; outras, mais toscas. Parece haver um traço em comum a todas: a inserção do elemento transcendente – seja ele a lei do carma, a divina providência ou o “imperativo histórico”.
    São modelagens e abordagens do real, do qual precisam fazer um inventário, onde incluem um elemento que é externo à percepção objetiva, porém necessário para que a teoria se mantenha em pé.
    A loucura está em se acreditar que o modelo é a própria realidade, exatamente como o fazem os Napoleões de hospício.

    A demência é generalizada.

    Pelo menos, boa parte dos pastores de dementes, embora também o sejam, estão programados e replicam um programa que mantém a maioria num estágio de loucura mansa. Certamente, a coisa poderia ser muito pior, dado o potencial latente…

      • vvsilver
      • 7 de julho de 2010

      Acabei de voltar de uma viagem muito exaustiva, só agora pude responder.

      De fato, existem vários sistemas filosóficos e religiosos, várias cosmogonias. Até mesmo o cristianismo, tão deturpado, já teve autores de uma sutileza e sofisticação difícil de descrever. Agostinho de Hipona, Isidoro de Sevilha, Tomás de Aquino, Gregório Magno são só alguns nomes. As Confissões de Agostinho são inspiradoras, de uma beleza ímpar. As Etimologias de Isidoro, uma obra extremamente elegante, exerce um fascínio enorme. Tenho especial carinho por Isidoro pois estudo sua obra. Imagino que esses grandes nomes devam lamentar profundamente os rumos que o cristianismo tomou… e isso só para ficarmos entre os doutores da Igreja.

      Muitas das religiosidades, ao contrário de muitas religiões, são espaços poderosos de produção de conhecimento, de tentativa de compreensão desses mistérios tão grandiosos que nos rodeiam. Esses espaços eu não só admiro como defendo… a cegueira voluntária é que me incomoda, a cegueira voluntária que causa males me leva a não calar.

  1. No trackbacks yet.

Seus comentários são muito importantes! Deixe sua opinião!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: