Fumar ou não fumar – ou a cortina de fumaça

Como previsto, chegou mais uma frente fria à São Paulo. Estava já acostumada com o inverno ameno e as noites frescas, quando, contrariada, tive que retirar meus agasalhos do armário. Não porque aqui em casa seja muito frio, mas porque tenho que ir ao terraço quando decido fumar meus deliciosos companheiros de noites solitárias: cigarros. É que a lei antifumo entrou em vigor aqui antes mesmo do José Serra implementá-la em São Paulo.

Tudo bem, estou resignada. Compreendo o quanto a fumaça pode ser incômoda para os não-fumantes. Bom, devo dizer que sou uma fumante educada, antes da lei – em meu lar e em São Paulo – já me retirava para ascender meus cigarrinhos, discretamente e sem muito reclamar. Como nem todos os fumantes são assim, digamos que a lei veio a calhar.

Mas não me conformo com as fotos de péssimo gosto que temos que mirar todas as vezes que pegamos nosso maço. Não preciso dizer detalhes sobre elas, todo brasileiro as conhecem.

Então descobriram a roda! Cigarro faz mal à saúde. Bom, se estão se referindo à saúde física, vá lá… mas cigarro faz muito bem à minha saúde mental, e como os neo age moderninhos, ecochatos e naturebas alardeiam: mente sã, corpo são. Não é?

E mesmo que minha apropriação de um dos mantras modernécos pareça forçar a barra, e as evidencias para os malefícios do tabaco sejam claras demais para serem veementemente ignoradas, insisto: a saúde de quem mesmo está sendo detonada? A minha, caros cristãos… pois como já disse, sou uma fumante gentil e não só não fumo em lugares fechados, como também não faço fumaça em aglomerações, pontos de ônibus, filas, etc… arrumo um cantinho arejado e afastado para lançar o fruto de meu vício aos ares, não nas narinas de terceiros. Se eventualmente algum transeunte inocente tem seu nariz violado por meu fumar, digo que foi um acidente raro. De qualquer modo, os ares de São Paulo são muito mais mortíferos que o respirar da minha fumaça por alguns segundos.

Em suma: a grande prejudicada pelo cigarro ascendido por mim sou eu própria. E fumo tranqüila, feliz e contente! Cada vez mais isolada, cada vez mais discriminada, cada vez pagando mais caro pelo meu tabaco sagrado de cada dia, mas fumando!

Fumando e ouvindo um monte de chatices:

“Isso mata”… aham, eu vou morrer um dia, e você viverá para sempre já que não fuma, certo?

“Ai, odeio beijar fumante, é igual beijar cinzeiro”… mesmo? E quem te iludiu sobre a possibilidade de eu te beijar?

“Ai, isso deixa um cheiro horrível”… ah tá! Mas não te pedi um abraço.

“Tão bonitinha e fumando desse jeito!”… uai, não sabia que tinha de ser feia para poder fumar!

“Ai, que fumaça fedida”… está perto de mim porque quer.

“Depois eu tenho que pagar mais caro pelo SUS para cuidar do seu câncer”… primeiro, eu tenho plano de saúde; segundo, eu também pago pelo SUS e o preço que já paguei até hoje daria para bancar cinco tratamentos para o câncer que você for capaz de pensar agora.

E por ai vai. É relativamente fácil desviar dessas frases tão profundas e cheias de sapiência que os não-fumantes chatos nos obrigam a ouvir. Complicado é ter de aturar as malditas fotos! Como nem sempre temos um papel para cobrir as imagens, as vezes somos obrigados a vê-la e revê-la e revê-la… é que nunca aprendemos, certo?

Vou sugerir ao Ministério da Saúde colar nas mesas dos políticos avisos inspirados na imaginação fértil dos idealizadores das campanhas anti-tabagistas:

“O dinheiro que você rouba, mata brasileiros de fome”

“Não proteja bandidos, salve um inocente”

“Seu descaso com a educação criou uma nação de analfabetos”

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