Isso é coisa de menina

“Isso não é coisa de menina”. Ouvi essa frase por incontáveis vezes na minha infância, depois passou para “você já é uma mocinha, não faça isso” e mais para a frente “você é uma mulher, por que não usa um salto alto?”. Desde pequena meu caráter humano foi moldado a partir dos parâmetros reservados ao gênero feminino, isso significa que eu deveria ser obediente, delicada, submissa, fazer do meu corpo um atrativo e do meu cérebro um apêndice incômodo. Obviamente que as qualidades da liderança não estavam incluídas nesse menu. Quantas mães e pais olharam para suas meninas e pensaram que elas dariam uma ótima presidenta da República e quantos pensaram que elas dariam uma ótima dona de casa?

É por essas e outras que tardei a constatar as possibilidades da eleição de uma mulher para o mais alto posto do nosso país, mas confesso que desde pequena – revoltada que sempre fui – sonhei com essa utopia. Vi e senti na pele todo o peso da condição feminina, testemunhei uma candidata ao senado pelo Rio de Janeiro sofrer os mais abomináveis ataques por ter defendido em público o direito básico das mulheres de terem autonomia sobre seus corpos, vi essa candidata ser derrotada na reta final por um canalha que representa o que há de mais podre e antiquado na política brasileira, afinal, para as mentes retrógradas de nossa nação mais vale um homem ladrão do que uma feminista. Li nos livros de história as obras dos grandes homens e me deparei com o silêncio sobre as grandes mulheres. Percebi que passou quase despercebido pelo mainstream o fato de que a emancipação feminina – esse fenômeno tão recente – teve um avanço fabuloso em menos de um século de história (e como historiadora sei o quanto um século é pouco). Ouvi os mais sujos e baixos argumentos contra minha “raça”, tentaram me ensinar que meu lugar é o fogão, que minha vocação natural é a maternidade e que meu destino é lavar cuecas do marido. Sei o quanto toda essa situação é tão “naturalizada” que muitas de minhas iguais concordam com ela. E não há semana que passe sem que eu ouça “tinha que ser mulher”.

“Tinha que ser mulher”, sim tinha! Tinha que ser uma mulher a chegar à presidência da república, tem que ser uma mulher a assumir qualquer cargo da administração pública ou de empresas privadas. Temos que ser nós a desbravar o caminho pela conquista de nossos plenos direitos e liberdades. A caminhada começou no final do século XIX quando algumas “histéricas” lutaram para que tivéssemos direito ao voto, a caminhada segue, afinal, como dizem por ai: “Feminism is the radical notion that women are people” (Feminismo é a noção radical de que mulheres são pessoas).

E escrevo tudo isso para dizer, por fim, que apesar de ser extremamente crítica ao PT, não posso deixar de vibrar ao saber que nosso país será governado por uma mulher nos próximos quatro anos!

 

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    • Ari
    • 2 de novembro de 2010

    Mas tinha que ser ESSA mulher?
    Isso vai agregar qualidade ou vai queimar o filme?

      • vvsilver
      • 2 de novembro de 2010

      A Dilma é inteligente e uma boa articuladora política, certamente seria melhor se ela estivesse em outro partido. Não sei se ela queimará o filme, se ela se mantiver sob a influência do Lula provavelmente sim. Mas confesso que tenho esperança nas mudanças, precisamos nos manter atentos e críticos. Não darei colher de chá para ela 🙂

        • Ari
        • 3 de novembro de 2010

        Não fique triste, se frustar-se tua esperança.
        Digo isso porque acho impossível que a realizes, agora, e também porque sei que mulheres e homens podem ser infinitamente melhores do que isso que a loucura eleitoral produziu.
        A cafajestice do Lula tem sido obliterada pela sua condição de “primeiro presidente de origem operária”; a tendência agora é blindar a Dilma pela condição de “primeira presidente mulher”.
        Pra mim chega de canalhas inimputáveis, mestres na auto-vitimização. Por conta dessa palhaçada cínica e interesseira temos a nata da bandidagem política brasileira no comando da nação. E isso, assim que possível, se traduzirá em perseguições, pois só conseguirão manter a enganação calando as vozes dissonantes, masculinas ou femininas, of course.
        PS: vc não me respondeu se tem algum domínio sobre os idiomas latim e grego. Nunca conheci pessoalmente quem soubesse isso. Vou até querer autógrafo… em grego e latim.

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