O TERRITÓRIO LIVRE DO HUMOR?

Recentemente uma série de polêmicas surgiu por causa de certas “piadas”.  E não falo só sobre aqueles desgastes oriundos dos comentários infelizes daqueles “humoristas” de um programa sensacionalistas e vulgar travestido de modernidades.

Créditos da Imagem: Mashpedia

O cantor mais bonito da cidade

Não é incomum quando pessoas públicas tentam remediar as besteirinhas que falam mediante o argumento “era só brincadeirinha”. O cantor gemedor Ed Motta há pouco justificou seus comentários sobre a beleza – ou falta de beleza – de alguns compatriotas justamente com essa desculpa, ele estava só brincando com os amigos quando disse que a maior parte da população brasileira – aquela mestiça desprovida de traços caucasianos – era feia.

            Não é difícil compreender o apelo a essa desculpa. Ora, criou-se um mito de que o humor é um território livre, você pode dizer absolutamente qualquer pasmaceira em forma de piada. Não se pode falar que o estupro é moralmente aceitável na maior parte das circunstâncias, óbvio, esse ato abominável e covarde causa no mínimo repulsa. Mas coloque um tom jocoso em alguma fala que insinue isso e ganhe a impunidade da piada. Há algo muito errado nisso…

            Não me surpreende que haja gente que realmente acredite nisso, me surpreende menos ainda constatar que essas pessoas dificilmente fazem parte do público alvo das brincadeirinhas. Essa gente raramente é mulher, negra(o), pobre. Duvido que aquele moço do CQC tenha sido alguma vez na vida estuprado, duvido que tenha sido expulso de um lugar porque estava amamentando seu bebê, duvido que seja órfão. É fácil fazer piada sobre algo que dificilmente se vai sentir na própria pele.

            Ele e muitos outros recorrem ao direito à liberdade de expressão para deslegitimar as críticas que recebem, pois bem, deveriam ler melhor nossa Constituição para perceberem que a liberdade de expressão tem limites, e o limite mais evidente é a dignidade daqueles que são alvos preferenciais do que chamam de “humor”. Parafraseando aquele velho ditado, se quiser falar o que quer, esteja preparado para responder pelo o que não quer.

            Se fazer piada está no âmbito do direito à liberdade de expressão, então fazer piada também está regulamentado dentro dos próprios limites da liberdade de expressão. Ora, vivemos numa sociedade onde se fala muito de direito, mas esquece-se sempre e oportunamente dos deveres e responsabilidades.

            Todo mundo que fala algo publicamente, caso ofenda alguém, está sujeito a um processo. Isso inclui, deve incluir, quando essa fala pública vem na forma de piadas. Não se trata de ser politicamente correto – e sinceramente não tenho nada contra o politicamente correto se ele significar respeito e responsabilidade – se trata de dizer que todos são responsáveis por seus atos e falas e devem responder por isso. O nome disso é dever, e sinceramente acredito que devemos parar de falar só de direitos, como se fosse um valor por si, e insistirmos nesse mantra: não há direito sem dever.

Anúncios
  1. No trackbacks yet.

Seus comentários são muito importantes! Deixe sua opinião!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: