É tudo pelo bem das criancinhas!

Uma matéria publicada no Yahoo fala do surgimento na Turquia de uma espécie de comissão responsável por lutar contra a obscenidade nas artes e na imprensa escrita. Sem muitas firulas, a dita comissão tem por objetivo censurar as obras que os seus nobres membros acham que os turcos não devem ler ou admirar. Ou seja, os nobres doutores – e religioso – se acham aptos a opinar sobre os gostos de todo um povo… eles se acham aptos a escolher o que pode e o que não pode ser lido. Qual a desculpa? A velha de sempre: proteger as criancinhas.

Não muito diferente dos comentários a praticamente todas as notícias que são veiculadas na imprensa. Nada mais comum do que encontrar: “e nossas crianças assistem a esses programas”, “e se uma criança presenciar dois homens se beijando, o que vai pensar?”, “com tanta criança passando fome…”, “sou contra o aborto porque defendo a vida das crianças”. Eu sinceramente acredito que se esses preocupados samaritanos virtuais amassem tanto com as crianças nossas ruas não teriam menores abandonados, nossos orfanatos estariam vazios e nossas escolas seriam puro luxo – pois quem realmente se preocupa com as crianças exige dos governantes a boa administração das escolas que recebem, pasmem, crianças!

O fato, pequeno gafanhoto, é que nem os senhores da comissão turca nem os internautas brazucas estão preocupados com as crianças. Os poderosos turcos usam os pequenos como uma boa desculpa para exercer nada mais, nada menos, do que CENSURA. Os internautas brazucas usam das crianças para justificarem seus próprios medos e confusões.

Vou por partes…

“As criancinhas vão ver esses absurdos na televisão!” – não sei vocês, mas minha mãe selecionava muito bem os programas que eu podia assistir quando eu era moleca. Tinha hora para ver TV, tinha programa que eu podia ver, e existiam aqueles terminantemente censurados pela única pessoa que podia censurar o que eu assistia, lia, ouvia: mamãe. É que não fui educada pela rede Globo, sabe cumé… então, papais e mamães, não fiquem a dar chiliques porque o filme que passa as 23h tem um beijo gay porque vossos rebentos ficarão traumatizados por causa de um beijo! Primeiro que 23h é uma ótima hora para crianças dormirem, segundo, porque os senhores podem simplesmente proibir seus filhotes de verem tamanha “obscenidade”. Então, não usem as crianças como justificativa para vosso horror a um beijo, assumam que quem está incomodado com isso é… ADVINHA! “Mas eu não tenho filhos, estou preocupado com os filhos dos outros” – Ah é? Quanta solidariedade! Imagino que você doou substanciais somas de dinheiro para auxiliar a família com dez filhos da favelinha perto da tua casa, né? Então tá!

“E se uma criança presenciar dois homens se beijando, o que vai pensar?” – Será que uma criança vai realmente sofrer para o resto de sua existência por presenciar um beijo? Ou será que quem está realmente incomodado com isso é o “senhor preocupado”? O fato é que não nascemos com repulsa a determinados tipos de beijo, aprendemos ao longo de nossa existência que certos beijos podem e outros nos levarão para o fogo do inferno. Uma criança em processo de aprendizagem ainda não absorveu todos esses códigos culturais, um adulto sim. A verdade é que o “senhor preocupado” usa as criancinhas como justificativa para seu próprio horror. Não é mais simples dizer “eu não quero ver dois homens se beijando” do que usar crianças como desculpa? Que coisa feia, viu?

“com tanta criança passando fome…” – quanto você doou para o “Fome Zero” ano passado? Quantas crianças alimentou esse mês? Quantas mobilizações por arrecadação de alimentos organizou no seu bairro? Nada? Nenhuma? Nunca organizou? Então pare de choramingar quando assistir uma apresentadora de televisão fazendo guerrinhas de bolo! Pare de se morder quando souber de um cara que torrou 500 mil dólares com um carro tunado! Faça a sua parte e deixe de vigiar a parte alheia!

“sou contra o aborto porque defendo a vida das crianças” – se você está tão angustiado com o bem-estar de uma criança não nascida, imagino que deve fazer muito para ajudar aquelas nascidas que foram abandonadas nas ruas, nos orfanatos ou sei lá onde porque eram filhos de pessoas que não tiveram condições de cria-las ou simplesmente não queriam tê-las, mas levaram a gestação até o fim porque aborto no Brasil é crime e os ilegais colocam as vidas de milhares de mulheres em risco todos os anos, né? Pois é… então esses nascidos na miséria podem com certeza contar com vossa ilustre ajuda, porque o senhor lutou por sua vida enquanto o pequeno estava no ventre, então não há dúvidas que lutará por essa mesma vida quando a criança estiver fora do ventre, certo? Ah tá, fico mais tranquila!

Eu, como a maioria das pessoas, acredito que crianças devem ser protegidas e defendidas sim. Mas me recuso terminantemente a usar isso como justificativa para minhas próprias percepções. O que quero dizer é que não critico um programa televisivo de péssimo gosto porque as criancinhas podem ter acesso a isso, critico esses programas porque eles são de péssimo gosto, ponto final. Não uso crianças para legitimar meus discursos, isso é desonesto. Desonestidade essa comprovada pelo fato de que tanto no Brasil, como provavelmente na Turquia, existem milhares, milhões, de crianças submetidas a todo tipo de tratamento degradante mesmo com tanta gente que se diz tão preocupada com elas…

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