Breviário da política brasileira – parte 1: os ministérios

Há tempos a política brasileira deixou de trabalhar a favor da população e passou a servir aos interesses de inescrupulosos que anseiam o poder e as benesses financeiras advindas dos cargos públicos eletivos. Uma eleição nessas terras tristes não se configura como uma disputa de projetos políticos feitos para população e sim como uma corrida ensandecida em direção ao pote de ouro no outro lado da urna.

Para usufruir do tesouro que escoa livremente nas câmaras, assembleias e palácios do governo vale tudo. Vale negar valores, vale fazer alianças obscuras, vale caixa dois, vale até se converter do ateísmo solene ao catolicismo fervoroso do dia para a noite. Não é, Fernando Henrique Cardoso? Não é, Dilma Rousseff?

Foto de André Dusek para o Estadão

Marcelo Crivella reza pela multiplicação dos peixes

E nesse jogo infame as instituições públicas são transformadas em feudos onde o senhor da vez distribui cargos ao sabor dos interesses político-partidários e no mais completo desrespeito a coisa pública. Ora, não é preciso saber colocar uma “minhoca no anzol” para assumir o ministério da pesca, basta fazer parte da coligação do momento e jurar subserviência em troca de votos na câmara e no senado federal assim como apoio na corrida [maluca] eleitoral.

Já é evidente que trato da escolha do senhor Marcelo Crivella como ministro da pesca. Pois é.

Mas a escolha de Crivella, antigo bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, aquela igreja acusada de lavagem de dinheiro, estelionato e sonegação fiscal, não é apenas uma questão de apoio nos plenários federais. Não mesmo. Estão em questão as eleições municipais que se aproximam a passos largos e que, novidade, nos brindam com as mais bizarras alianças políticas. Não é, Antony Garotinho? Não é, César Maia?

Desde a escolha da nova ministra da secretaria das mulheres, a senhora Eleonora Menicucci, a população cristã brasileira – que está longe de ser minoritária – entrou em alvoroço. É que Menicucci nunca escondeu ser favorável ao aborto. E se há um assunto que arrepia o mais incauto beato, esse assunto é aborto. Tema proibido, tabu! Não se fala mais nisso.

É obvio que esse detalhe seria (será!) usado pela oposição ao PT e seus filhotes durante as eleições municipais. Já esqueceu do circo durante as últimas eleições? Quando os projetos políticos foram protelados a favor da disputa sobre quem era mais pio? Então…

Para aplacar os ânimos dos leitores ditos “conservadores” nada mais óbvio do que escolher um líder evangélico popular que faz parte de uma igreja que apesar dos pesares ainda tem um enorme apelo popular. Crivella tem um discurso que agrada essa parcela da população. Já se posicionou contra o malfadado PLC 122/06, criticou o STF que equiparou uniões civis de casais homossexuais às uniões de casais heterossexuais, mas… percebam o detalhe: faz parte da IURD que tem uma posição sobre o aborto bem discordante em relação a outras denominações protestantes. Mas tenho certeza que isso passará despercebido, os eleitores brasileiros tratam detalhes como os leitores ruins tratam introduções e notas de rodapé de livros: passam batidos e vão logo para as conclusões.

É justamente para ludibriar os eleitores mais passionais que um ministério que trata de um assunto importante foi delegado para um incompetente que nunca segurou um anzol. E os bestializados que tem o poder do voto se perdem direitinho na cortina de fumaça cultivada pelos inescrupulosos. Acorda Alice!

« Avarum irritat, non satiat pecunia. »

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