Uma Comissão da Verdade…de verdade!

A instauração da Comissão da Verdade que tem por objetivo investigar crimes cometidos nos porões da ditadura tem causado alvoroço. Os Clubes Militares lançaram uma nota de repúdio que contrariou o governo e foi retirada da internet. Entretanto o cabo de guerra continua. De um lado alguns militares contrários à Comissão da Verdade e o risco de um revanchismo. Do outro lado o governo e alguns grupos do auto-denominado “movimento social” a favor não só da comissão, mas também da revisão da lei da anistia que anistiou tanto militantes e guerrilheiros quanto agentes do Estado.

Pessoalmente sou favorável a Comissão da Verdade. O Brasil é o único país da América Latina que  criou mecanismos para apagar essa parte da sua história. Mas sou a favor de uma Comissão da Verdade… de verdade! Que seja isenta e investigue os dois lados.

As Forças Armadas Brasileiras de fato operaram um golpe de Estado, no dia 15 de Novembro de 1889 quando derrubaram a monarquia sem qualquer apoio popular e expulsaram a Família Real Brasileira na calada da noite com medo da reação popular. Em 1964 a coisa foi diferente, não por acaso a melhor qualificação do ocorrido naquele ano não é “Golpe Militar”, mas “civil militar”. As Forças Armadas em 1964 contaram com um significativo apoio civil para destituir Goulart da presidência e evitar uma guinada do Brasil para o socialismo. Goulart realmente levaria o Brasil para esse caminho? Não sei, isso é contrafactual e não costumo enveredar por esses campos.

Uma Comissão da Verdade que queria buscar a verdade sobre o que aconteceu entre 1964 e 1985 deve investigar também a participação considerável da população civil no teatro dos eventos que redundou na renúncia de Jango, e, portanto, não deve ignorar a incômoda pergunta: houve realmente um golpe de Estado? Há golpe de Estado quando existe amplo apoio civil à queda de um presidente?

Uma Comissão da Verdade deve considerar também que grupos armados de oposição ao governo surgiram não com vistas à restauração da democracia, mas sim a favor da derrubada de um governo que contava com apoio civil. Ainda, a dita “resistência” armada era formada por grupos radicais de esquerda que desejavam transformar o Brasil numa outra ditadura, mas dessa vez do “proletariado”. Quando esses ex-militantes estufam o peito para dizer que foram os defensores da democracia, mentem! E eles mataram, sequestraram, assaltaram e por isso devem ser alvo também da Comissão da Verdade, caso ela seja de verdade.

Quem defende uma Comissão da Verdade não deve temer a verdade, seja ela qual for. Penso que se essa comissão fosse de verdade não levantaria tantas suspeitas entre os Clubes Militares. Como bem disse o  Major-Brigadeiro-do-Ar Rui Moreira Lima, um homem de 92 anos veterano da II Guerra Mundial e que foi perseguido durante o governo militar:

“[…]quem fez isso (tortura e assassinato de militantes) não foi o Exército nem a Aeronáutica nem a Marinha. Foram sujeitos que nasceram ruins, mal caráteres, com ódio no coração e inveja.”

As Forças Armadas Brasileiras não têm o que temer numa Comissão da Verdade…de verdade.

 Leia na íntegra a Entrevista do Major-Brigadeiro-do-Ar Rui Moreira Lima aqui

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