A causa assaltada

Há um vídeo muito interessante da escritora nigeriana Chimamanda Adichie onde ela disserta sobre o perigo de uma história única. Uma história que só se escreve pelo ponto de vista do outro e cala os descritos, como se fossem incapazes de falar por conta própria, como se precisassem sempre de alguém para orientar seus pensamentos, ações e desejos. Essas pessoas despertam pena e, por compaixão, devem ser conduzidas pelas mãos por seus salvadores que sabem o que elas devem fazer para escapar da miséria.

            O relato eletrizante de Chimamanda Adichie me veio à mente quando li um texto que trata do Fórum Social Temático ocorrido entre 24 e 29 de janeiro de 2012 postado no site Ciranda.net. O dito texto mencionava um senhor que se perguntava como fazer para atingir os 99% ou seja, a população alvo dos debates ocorridos no fórum, a maioria, as crianças que relutam aderir à luta dos salvadores do Fórum e tantos outros reunidos sob alcunhas chamativas que visam expressar o quanto estão comprometidos com a salvação da humanidade.

            Arrisco dizer que, no alto de seus pedestais, os salvadores não cogitam a hipótese de não representarem os 99%. Afinal, eles foram eleitos pelos 99%? Os 99% pediram pela redenção, rogaram por ajuda ou realmente se preocupam com os problemas denunciados e superestimados pelos salvadores?

            Essas pessoas abnegadas que perdem horas de seus dias encerradas em salas climatizadas muitas vezes pagas com dinheiro público acreditam com enorme fé que são as bandeiras deles que devem ser hasteadas pelos 99%, caso contrário se evidenciará a ignorância dos 99% que devem ser trazidos à luz em suas oficinas de formação onde, no fim, eles formam a eles próprios.

            Os salvadores são majoritariamente pessoas que vivem em apartamentos confortáveis em grandes centros urbanos e se sentem terrivelmente incomodados pela própria condição, embora jamais pensem em abandonar suas ilhas de prosperidade. Como estão incomodados e como não querem largar o osso se lançam em empreitadas fabulosas para libertar os miseráveis. Se pensarmos bem, eles não estão de fato preocupados com os miseráveis, com os 99%, com os coitados, eles estão preocupados com eles mesmos, eles querem o fim da própria culpa. Repito, da própria culpa, pois se a culpa não fosse deles os 99% certamente não precisariam daquelas mãos santas, os 99% se mobilizariam por conta própria.

            A propósito, nunca é demais lembrar que muitas vezes os abnegados são pagos para empreender suas tão nobres missões.

Confira o relato de Chimamanda Adichie: parte 1 e parte 2 (legendado em português!)

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