O milagre chinês?

A China é por vezes celebrada como um exemplo de milagre econômico. Há poucos anos era um país pobre e isolado e hoje desponta como a segunda maior economia do mundo. Produtos chineses inundam as prateleiras de nossas lojas. Baratos e vagabundos, mas consumidos com avidez, ameaçam a indústria nacional que afogada em impostos perde competitividade. Isso quando não entram ilegalmente no país e ficam mais baratos ainda, deixando os “espertos” brasileiros em transe com a facilidade de comprar uma falsificação ridiculamente barata na 25 de março em São Paulo.

Meu pai sempre me diz que não existem coisas fáceis na vida e se algo é muito barato e fácil de conseguir geralmente há um custo altíssimo por trás. Qual é o verdadeiro custo da tralha comprada na 25? Qual é o custo do crescimento “milagroso” da China?

Para começar a China conta com leis, ou falta de leis, trabalhistas que impõem aos trabalhadores uma jornada de trabalho praticamente escrava, tudo com a anuência de um governo comunista mais preocupado com riquezas do que com o bem-estar de seus cidadãos. É bem mais fácil produzir coisas baratas e em larga escala quando você pode impor aos seus trabalhadores uma jornada intensa de trabalho e com baixos custos. Pague uma miséria a um pobre coitado qualquer e faça-o trabalhar 10, 11, 12 horas por dia, essa é a fórmula infalível para lucros rápidos e estonteantes. Mas a indústria chinesa é a única beneficiada com o regime trabalhista draconiano da China? Não, evidentemente. Olhe o seu lindo MacBook da Apple e veja onde ele foi produzido, seu tênis da Nike, ou qualquer outra porcaria que você comprou alegremente e que custou caro, caríssimo, para os trabalhadores do outro lado do mundo, submetidos a condições sub-humanas para atender aos nossos caprichos consumistas.

Mas eu não quero falar só sobre economia.

Há poucos meses olhamos estarrecidos para um vídeo chocante onde uma menina chinesa foi atropelada mais de uma vez enquanto as pessoas na rua passavam como se nada estivesse acontecendo. “Os chineses são monstruosos!”, li em muitos comentários na internet. Será o caso?

Sim, pode ser, mas são monstruosos não por serem chineses, mas por serem humanos. A popularização da visão de Rousseau dos humanos como naturalmente bons, corrompidos pela cruel sociedade, ganhou ares de uma verdade tão óbvia, tão forte, que fundamentou muito das leis e políticas largamente aceitas no mundo, especialmente o Ocidental. Enquanto isso Hobbes e a leitura do homem enquanto lobo do próprio homem foi relegada ao ostracismo ou “criticada” em nossas salas de aula com a propriedade dos inteligentíssimos mestres esquerdalóides que falam em liberdade e direitos humanos enquanto celebram o aniversário da “Revolução” cubana.

Não somos naturalmente bons, somos seres egoístas e que, graças à sociedade e seus códigos morais, religiosos e de conduta saímos da selvageria para podermos minimamente viver em grupo. Não há solidariedade instintiva.

Mas quando um governo reduz seus cidadãos a peças de uma máquina que deve alcançar um objetivo qualquer independente dos custos humanos toda a moralidade que consideramos essencial para a existência digna é jogada no ralo. Os indivíduos são dissolvidos e passam a compor uma enorme massa desumana rumo aos objetivos de seus líderes. Quando uma peça quebra basta jogar fora e substituir. Quando uma peça atrapalha a engrenagem basta jogá-la fora e substituir. Essa é a característica fundamental dos regimes totalitários tão bem enunciada por Todorov no seu livro excepcional “Em face do extremo”. Leiam! É um soco no estômago.

E nessa engrenagem todas as normas sociais que nos fazem minimamente solidários com nossos semelhantes se perdem, simplesmente porque não são aprendidas pelas outras peças. A menina chinesa atropelada era só uma peça, não há solidariedade, não há compaixão. Deixe-a perecer, ela será substituída.

E vemos a China e sua política do filho único onde famílias simplesmente descartam suas meninas, pois ter um menino é economicamente mais vantajoso. A menina não importa, a máquina precisa girar, use as melhores peças!

E quando elas não são eliminadas ainda na gestação são muitas vezes abandonas em orfanatos estatais e deixadas para morrer de fome. São os quartos da morte chineses, uma história infame e convenientemente negada pelo governo chinês, mas também pelos governos Ocidentais, preocupados com as vantagens econômicas que suas fábricas podem obter na China. Evidentemente o totalitarismo chinês é bastante vantajoso para os governos Ocidentais. Se eles não podem tratar seus cidadãos como escravos, se eles não podem matar suas meninas, já que as sociedades do Ocidente graças a uma tradição longíssima moral e religiosa não aceitariam isso tão facilmente, então aproveitam o estrago que o comunismo fez na China.

E vamos em frente, certo? Brincando com nossos IPads, ouvindo nosso MP4 e passeando pela Avenida Paulista sobre nossos lindos Nikes. 

Anúncios
  1. No trackbacks yet.

Seus comentários são muito importantes! Deixe sua opinião!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: