Favela, meu amor

Li uma reportagem sobre a prisão do Rapper Emicida que num show na periferia de Belo Horizonte estimulou o público a levantar o dedo do meio para os policiais. O rapper foi detido por desacato. Podemos imaginar que colocar o público de um show contra os policiais que trabalham para manter a segurança e a ordem pode colocar em risco a vida desses homens e do próprio público. E se as pessoas aquecidas pela música de Emicida – que é um protesto contra a desocupação de Pinheirinho – decidissem atacar os policiais que cuidavam do show? Talvez o ato de Emicida tenha sido irresponsável, mas mesmo que ele não tivesse feito isso e apenas cantasse a música os policias não poderiam dar voz de prisão para o artista pelas mesmas razões que efetivamente deram? Afinal, diz um trecho da letra: “De violência / sob coturnos de quem dita decência / Homens de farda são maus / era do caos / Frios como halls, engatilha e plau! / Carniceiros ganham prêmios na terra onde bebês respiram gás lacrimogêneo“. Acho que sim… mas se esse tivesse sido o caso entraríamos em outra discussão sobre a liberdade de produção artística. E sobre liberdade de expressão eu tenho uma opinião bem formada: ela deve ser defendida em todos os sentidos, incondicionalmente. Isso mesmo!

A desocupação de Pinheirinho foi o cumprimento de uma decisão judicial. Se houve excesso dos policiais isso precisa ser investigado, embora pelo andar da carruagem as coisas vão ficar por isso mesmo. A impunidade no Brasil é generalizada, especialmente quando os prejudicados são favelados que tanto nos incomodam. Sim, incomodam.

Quando surgem barracos nos morros próximos às nossas casas, quando passamos tremendo com nossos carros por avenidas que cruzam favelas, quando vemos a paisagem de nossas cidades maculadas por barracos precários e lixo ou quando cruzamos com uma pessoal mal vestida, falando um português torto e jogando na nossa cara que ainda não somos o país do futuro.

Favelas incomodam, mas deveria ser mais incômodo perceber que um pai de família que ganha um salário mínimo não tem condições de comprar ou alugar uma casa em um lugar decente. Há pessoas que moram nas favelas pela comodidade de não pagar impostos e contas? Sim. Há pessoas que moram porque não tem condições de sair dessa situação? Evidente.

Miséria

Foto tirada em Montevidéu, Uruguai. Abril de 2012.

Estudei com uma menina na época do pré-vestibular que cresceu numa favela muito miserável na Baixada Fluminense. As favelas da Baixada Fluminense estão longe das câmeras da Globo, Record ou Band. As favelas da Baixada estão escondidas dos olhos sensíveis do bacana de Copacabana. As favelas da Baixada não tem a vista deslumbrante que se vê do alto da Rocinha. São miseráveis. Minha mãe que é professora da rede Estadual do Rio de Janeiro e trabalha numa escola localizada num dos bairros mais pobres do Estado já cansou de me contar casos de alunos que desmaiavam de fome durante as aulas. Os professores fazem vaquinhas para comprar cesta básica para as famílias mais pobres e quando falta merenda na escola eles compram com o próprio pouco dinheiro alguns biscoitos e leite para a molecada que realmente precisa. Essas crianças não são filhos de vagabundos. Seus pais trabalham. São os empacotadores do mercado da Vieira Souto, as empregadas do Leblon, os faxineiros do Shopping da Gávea. Gente que cruza a cidade em ônibus caros e caindo aos pedaços, enfrentam as filas da Central do Brasil como o coração na mão por saberem que seus filhos estão sozinhos no outro lado do Rebouças, na beira da Via Dutra, nas vielas com esgoto à céu aberto.

A menina que estudou comigo era uma dessas crianças. O pai saiu de casa e sumiu no mundo, a mãe teve que criar ela e a irmã sozinha. Era costureira, trabalhava intensamente, nos finais de semana costurava em casa. A moça um dia me contou que numa noite de Natal a polícia invadiu o barraco onde ela morava, ela acordou com o barulho e quando viu a bota de um dos policias pensou que fosse o Papai Noel. Mas ele não trazia presentes, apenas um fuzil.

A mãe da menina nunca se conformou em morar naquele lugar. Juntou dinheiro por anos, muitos anos e conseguiu comprar uma casinha em São João de Meriti, tudo nos conformes, construída no asfalto e solenemente legalizada. Essa menina que estudou comigo falava com um orgulho imenso da casinha e da mãe batalhadora. Ela fazia o cursinho durante a noite e trabalhava pela manhã, nunca a ouvi reclamar ou se lamentar.

Penduradas nos morros há muitas dessas histórias de vida, de sacrifício diário e pequenas conquistas. Com um salário mínimo não dá para morar no asfalto, mas é inadmissível que essas pessoas tenham que viver nas favelas, sem dignidade, cercadas por marginais e sob o fogo pesado da guerra carioca que mata mais que a do Afeganistão.

Não defendo invasões, não defendo moradias ilegais, defendo uma política habitacional séria, linhas de crédito para que famílias carentes possam comprar suas casinhas. Há muita gente que desmerece programas como o “Minha casa, Minha vida”, é fácil fazer isso de dentro de um apê com três quartos. O “Minha casa, Minha vida” precisa melhorar, as obras estão lentas e já tem gente burlando o sistema, mas a essência do programa é boa sim. Tem gente que fala mal do Bolsa Família, é uma esmola miserável e serve para criar currais eleitorais dos paternalistas, sim… mas diga isso na cara de uma criança que desmaia de fome, diga isso para o professor mal remunerado que junta o pouco que tem para dar comida para uma molecada que convive com a miséria. Sessenta reais faz diferença para quem já abriu a despensa e a encontrou vazia. Não podemos deixar essa gente desassistida, por favor! Mas não podemos também permitir que o governo assaltado por oportunistas canalhas transforme a tragédia em máquina de votos. Que o Bolsa Família continue como um plano para tirar pessoas do desespero, mas que seja um paliativo, algo provisório e que essa gente possa parar de depender da ajuda do Estado o quanto antes. Que linhas de crédito para moradias populares cresçam e que as famílias brasileiras possam, todas, planejar a compra da casa própria e ter a dignidade de pagar pelo próprio teto!

Vamos parar de desmerecer o que é essencialmente bom, vamos pressionar para que seja totalmente bom.

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