Cenas marcantes do cinema contemporâneo – Adeus Lênin

Uma das vantagens de viver numa grande metrópole como São Paulo é a rica oferta de filmes exibidos nas salas de cinema. Mesmo com a proliferação das grandes salas de Shoppings Centers – que eu particularmente detesto porque não suporto shoppings e não aguento com público adolescente mal educado – alguns bons cinemas ainda resistem na capital e exibem filmes que não estão na categoria comédia-romântica-imbecil, explosões-testosterona-tiro e vampiros-brilhantes-babões.

O último que assisti foi o excelente Tomboy da Céline Sciamma que tem um estilo de direção que muito me agrada. O filme já saiu de cartaz há tempos. Confesso que não ando muito afeita a frequentar inclusive as salas mais alternativas, é que gosto de ver filmes fumando cigarros, tomando café e, depois de terminada a película, gosto de voltar às cenas que mais gostei. São Paulo anda hostil com os fumantes, vá lá, acho que precisamos nos resignar com a preocupação dos governantes com os impostos que perdem quando morremos de câncer aos oitenta anos! Aham…

Selecionei algumas cenas que me agradaram nos últimos anos. Evidentemente a seleção é totalmente pessoal e isso não se trata de uma lista de top 10. Nops, nem colocarei 10 cenas, afinal! Talvez menos, talvez mais.

Bom, vou publicar esse post e conforme o andar da carruagem postarei outras cenas em outras oportunidades.

Goodbye Lenin – o adeus do revolucionário

Good Bye Lenin! (2003)

No Brasil – Adeus, Lenin!

Direção: Wolfgang Becker

Elenco: Daniel Brühl, Katrin Sass e Chulpan Khamatova

País: Alemanha

Cena que já nasceu clássica! O filme é brilhante, mas essa cena… nossa! A sinopse: O filme se passa na Alemanha Oriental. Alex viu a mãe sofrer um colapso cerebral e entrar em coma antes da reunificação. Quando ela acorda, depois que a Alemanha voltou a ser uma, o dedicado filho tentar esconder a verdade da mãe – uma entusiasta do comunismo – para que ela não sofresse um grande choque e tivesse novos problemas de saúde. O que achei: o filme mostra a reunificação sob uma perspectiva muito singular, o anacronismo do mundo que Alex [re]criou para a mãe poderia soar apenas patético, não fosse comovente pelo carinho e amor que o jovem nutre pela mãe a ponto de transformar a realidade!

A cena. Alex adormece exausto pelos enormes esforços que andava fazendo para refazer a Alemanha Oriental. A mãe acorda e decide dar uma volta e… 

Anúncios

História da Música Brasileira

Amigos!

Vejam que trabalho lindo!

A riqueza da música brasileira vai além das sonoridades populares. Ricardo Kanji nos guia por quinhentos anos de música brasileira nessa série rica, didática e disponibilizada gratuitamente no Youtube! Aproveitem!

Veja os outros capítulos da série aqui.

Dica do PQP Bach!

A impressionante Operação Prato – extraterrestres no Brasil?

Últimos anos da década de 1970. No município de Colares, no estado do Pará, estranhos fenômenos luminosos começaram a aterrorizar a população, em algumas ocorrências as testemunhas acabaram com ferimentos estranhos e um pescador foi vítima fatal do que a população local começou a chamar de chupa-chupa. A única médica da região, a doutora Wellaide Cecim, recebia a cada dia cada vez mais vítimas do estranho fenômeno que relatavam o impressionante evento com uma similaridade desconcertante, mesmo sendo essas pessoas, as vezes, moradoras de regiões que distanciavam 100 km umas das outras.

O pânico começou a se alastrar entre os ribeirinhos que temiam o castigo divino ou o julgo do anjo decaído que viera para flagelar a humanidade. As pessoas se aglomeravam em poucas casas para realizar vigílias religiosas e ascendiam fogueiras para tentar afastar a luz estranha.

A FAB tomou conhecimento da situação e designou o então capitão Uyrangê Hollanda para investigar os acontecimentos aterradores. Começava a maior operação realizada em solo brasileiro sobre UFOs. O Capitão Hollanda foi escolhido por ser um homem destemido e ponderado, tinha, afinal, o perfil ideal para comandar a operação que entrou para história com o nome de Operação Prato. Hollanda não acreditava que aqueles eventos tinham relações com vida extraterrestre. Depois de quatro meses de investigação mudou de opinião.

Durante os quatro meses em que esteve na região o capitão Hollanda testemunhou eventos que desafiam nossa compreensão. Luzes intensas que surgiam do nada e desapareciam tão misteriosamente quanto começaram. Objetos voadores gigantescos que realizavam manobras impossíveis para a arte da aviação daqueles anos. Tudo devidamente fotografado, filmado e mapeado pelo eficiente capitão. Depois dos poucos meses de investigação a FAB, sem grandes explicações, ordenou que o capitão encerrasse suas atividades, mas ele continuou uma investigação pessoal com empenho para entender exatamente o que estava acontecendo. A partir de 1992 o agora Coronel Hollanda começou a revelar tudo o que tinha visto, em 1997 deu uma entrevista registrada por vídeo, dois meses depois da entrevista foi encontrado morto. Supostamente cometeu suicídio, tese que muitas pessoas não aceitam.

O que aconteceu no Pará realmente eram fenômenos ufológicos?

A pergunta é difícil. Sabemos que muitos fenômenos astronômicos são erroneamente interpretados como manifestações de vida inteligente oriunda de outros planetas. Testes militarem com aeronaves ultrassecretas também são vistos como visitas de extraterrestres. Mas mais decisivo: até hoje não veio à público provas contundentes para afirmarmos a existência de vida inteligente em outro planeta.

Evidentemente que o testemunho de um militar do quilate do Coronel Hollanda reforça a hipótese da visita de seres extraterrestres ao nosso pequeno ponto azul. E o Coronel Hollanda não foi o único a falar sobre isso. Ocasionalmente surgem relatos de pilotos e astronautas que descrevem fenômenos desconhecidos no espaço aéreo. Não estamos falando de pessoas leigas que avistam luzes no céu durante um churrasco noturno no quintal de casa, mas de aviadores profissionais, altamente treinados e que passam horas e horas voando. É difícil imaginar que esses profissionais mentiriam e colocariam suas reputações e carreiras em risco, não obstante, alguns relatos foram registrados no calor do momento, durante um voo ou fora de nossa atmosfera.

Podemos concluir então que seres extraterrestes inteligentes existem e nos visitam periodicamente?

Ora, não podemos descartar essa hipótese, mas também não parece sensato aceita-la imediatamente. Ainda não conhecemos todos os mistérios do universo e muitos eventos astronômicos ainda não foram catalogados e/ou compreendidos. É possível que esses pilotos e oficiais tenham testemunhado justamente alguns desses fenômenos desconhecidos pela ciência. Não podemos descartar também a possibilidade de testes militares secretos realizados por outras nações, ou pelas próprias nações das testemunhas.

Mas há algo ainda mais fascinante nessa história.

Ora, mesmo com conhecimentos rudimentares de biologia evolutiva (como dessa que vos escreve), se pensamos nos complexos fatores combinados que redundaram na inteligência humana desconfiamos da probabilidade desses mesmos e exatos fatores combinados ocorrerem em outro lugar do universo. O próprio surgimento de formas de vida mais complexas no nosso Planeta pode ter sido um evento singular e único, imaginem então o surgimento de vida inteligente que tem o ímpeto de construir espaçonaves e cruzar o espaço para visitar um planeta pequenininho diante da enormidade do universo!

O grande biólogo Ernst Mayr em seu fenomenal livro “Biologia: Ciência Única” ainda nos alertou sobre um outro elemento geralmente esquecido. A inteligência não é necessariamente o resultado do processo evolutivo, isso quer dizer que o surgimento de vida em algum outro lugar do espaço não necessariamente desembocará no surgimento de vida inteligente. É que nós, humanos e antropocêntricos, temos nós mesmos como medida das coisas e nos elevemos para uma hierarquia superior dentre as outras formas de vida. É como se todos os mecanismos da evolução fossem guiados por algo que redundaria no nascimento da inteligência. Mas não é assim que as coisas funcionam. Nossa inteligência, nossa espécie, é realmente fascinante – e como historiadora sou bem suspeita para falar isso – mas na grandiosidade e complexidade da natureza e das vidas que nela nascem não somos tão notáveis assim. Quando vi uma espécie de mariposa pela primeira vez por uma lupa eu fiquei realmente chocada com a arquitetura daquele bichinho, os detalhes das asas, dos olhos, das cerdas. Quando ouvi um pouco sobre a ecologia desses animais, fiquei mais impressionada ainda. Saber um pouquinho da beleza das coisas que achamos ordinárias nos faz repensar sobre a condição humana.

Aprendemos a voar, pisamos na Lua, criamos máquinas que podem nos levar para lugares que nossos corpos não permitiriam, criamos curas para doenças, aumentamos nossa expectativa de vida para níveis únicos na nossa história, mas um vírus ou uma bactéria poderia dizimar nossa espécie em um punhado de anos. Um corpo celestial poderia atingir nosso planeta e nos apagar do universo… o Sol continuaria a brilhar, estrelas em distâncias que não podemos imaginar ainda nasceriam e morreriam. O universo existiu muito antes de nós e tudo leva a crer que continuará depois de nós. Nessas escalas astronômicas somos irrelevantes. É difícil escrever isso. Nossa inteligência, que com toda a razão amamos, diz mais sobre nossa pequenez do que dita o rumo da natureza.

Quando pensamos na possibilidade de vida inteligente em outros planetas, será que não falamos mais sobre nós mesmos do que sobre essa vida inteligente? Por que uma hipotética vida inteligente teria o mesmo ímpeto que nós temos de explorar o universo? E por que essa forma de vida inteligente se interessaria justamente por nós?

Há muitos mistérios lá fora e talvez realmente não estejamos sozinhos. Mas há um mistério bem mais próximo e tangível aqui, na nossa querida Terrinha: nós.

Uma mensagem para a ABDR (Associação Brasileira de Direitos Reprográficos)

Há pouco precisei consultar uma obra que AINDA não comprei, mas já li em bibliotecas. Eu queria ler apenas umas poucas páginas para ter a certeza que minha memória e anotações não traem o texto. Tentei entrar no excelente “Livro de Humanas”, uma biblioteca virtual que distribuía gratuitamente livros digitalizados quando me deparei com uma triste mensagem. O site está fechado por conta de ameaças feitas pela ABDR (saiba mais aqui).

Escrevi então uma mensagem para a tal da ABDR, mas faço questão de compartilhar com vocês minhas palavras humildes.

Faço um apelo aqui. Não deixem isso passar em branco! Escrevam sobre em seus blogs, divulguem o absurdo nas redes sociais e, mais importante, vamos tentar comprar obras vendidas pelos próprios autores na internet. Sites como Amazon permitem que autores vendam diretamente seus livros, a Amazon leva uma porcentagem, mas os autores ficam com boa parte dos lucros e encontramos e-books lá que realmente custam mais barato, compare os preços dos e-books disponíveis no mercado brasileiro para ver a diferença…

Você é autor? Experimente vender suas obras diretamente na rede sem o intermédio de editoras!

Sem mais delongas, minha mensagem para a ABDR:

Muitos dos livros que fazem parte da minha biblioteca, ainda pequena, mas enorme se compararmos com a quantidade dos livros que a maioria dos brasileiros possui em casa, foram adquiridos depois que li trechos das obras colocadas pelos meus professores no “xerox”. Muitas das obras que hoje estão devidamente organizadas nas minhas estantes foram compradas depois que li uma versão digital “baixada” da internet.

Eu compro livros porque amo livros, tenho um carinho enorme pelas obras que possuo e quando gosto de algo que leio na internet ou em textos fotocopiados faço questão de juntar dinheiro e comprar a obra para prestigiar os autores, mesmo sabendo que são editoras e pretensos “defensores” de direitos autorais que ficam com a maior fatia dos lucros da venda. Gente que as vezes nunca escreveu dez páginas de um trabalho inédito, que não sabe o sacrifício que é produzir e concretizar pela escrita uma obra da mente humana, e se acha no direito de explorar e colocar um preço proibitivo no conhecimento.

Não vou tentar convencê-los do absurdo que é perseguir a difusão do conhecimento em um país onde livros custam caro e poucos podem comprá-los. A ganância é assassina da sabedoria e parcimônia.

Mas vocês devem saber que os dias dessa atividade infame que vocês realizam com empenho está com os dias contados.

Autores agora podem disponibilizar suas obras na internet e vendê-las ou distribuí-las gratuitamente sem o intermédio de vocês. Na Amazon muitos autores colocam seus livros que podem ser comprados por preços justos ou baixados para o  e-book reader da Amazon – há pouco comprei um livro que eu estava de olho há tempos, ele chegou em segundos para meu e-book reader e já me delicio lendo a obra e sabendo que a autora ganhou muito mais vendendo dessa forma. Como eu fico feliz com isso!

Eu respeito direitos autorais, vocês defendem seus interesses.

Favela, meu amor

Li uma reportagem sobre a prisão do Rapper Emicida que num show na periferia de Belo Horizonte estimulou o público a levantar o dedo do meio para os policiais. O rapper foi detido por desacato. Podemos imaginar que colocar o público de um show contra os policiais que trabalham para manter a segurança e a ordem pode colocar em risco a vida desses homens e do próprio público. E se as pessoas aquecidas pela música de Emicida – que é um protesto contra a desocupação de Pinheirinho – decidissem atacar os policiais que cuidavam do show? Talvez o ato de Emicida tenha sido irresponsável, mas mesmo que ele não tivesse feito isso e apenas cantasse a música os policias não poderiam dar voz de prisão para o artista pelas mesmas razões que efetivamente deram? Afinal, diz um trecho da letra: “De violência / sob coturnos de quem dita decência / Homens de farda são maus / era do caos / Frios como halls, engatilha e plau! / Carniceiros ganham prêmios na terra onde bebês respiram gás lacrimogêneo“. Acho que sim… mas se esse tivesse sido o caso entraríamos em outra discussão sobre a liberdade de produção artística. E sobre liberdade de expressão eu tenho uma opinião bem formada: ela deve ser defendida em todos os sentidos, incondicionalmente. Isso mesmo!

A desocupação de Pinheirinho foi o cumprimento de uma decisão judicial. Se houve excesso dos policiais isso precisa ser investigado, embora pelo andar da carruagem as coisas vão ficar por isso mesmo. A impunidade no Brasil é generalizada, especialmente quando os prejudicados são favelados que tanto nos incomodam. Sim, incomodam.

Quando surgem barracos nos morros próximos às nossas casas, quando passamos tremendo com nossos carros por avenidas que cruzam favelas, quando vemos a paisagem de nossas cidades maculadas por barracos precários e lixo ou quando cruzamos com uma pessoal mal vestida, falando um português torto e jogando na nossa cara que ainda não somos o país do futuro.

Favelas incomodam, mas deveria ser mais incômodo perceber que um pai de família que ganha um salário mínimo não tem condições de comprar ou alugar uma casa em um lugar decente. Há pessoas que moram nas favelas pela comodidade de não pagar impostos e contas? Sim. Há pessoas que moram porque não tem condições de sair dessa situação? Evidente.

Miséria

Foto tirada em Montevidéu, Uruguai. Abril de 2012.

Estudei com uma menina na época do pré-vestibular que cresceu numa favela muito miserável na Baixada Fluminense. As favelas da Baixada Fluminense estão longe das câmeras da Globo, Record ou Band. As favelas da Baixada estão escondidas dos olhos sensíveis do bacana de Copacabana. As favelas da Baixada não tem a vista deslumbrante que se vê do alto da Rocinha. São miseráveis. Minha mãe que é professora da rede Estadual do Rio de Janeiro e trabalha numa escola localizada num dos bairros mais pobres do Estado já cansou de me contar casos de alunos que desmaiavam de fome durante as aulas. Os professores fazem vaquinhas para comprar cesta básica para as famílias mais pobres e quando falta merenda na escola eles compram com o próprio pouco dinheiro alguns biscoitos e leite para a molecada que realmente precisa. Essas crianças não são filhos de vagabundos. Seus pais trabalham. São os empacotadores do mercado da Vieira Souto, as empregadas do Leblon, os faxineiros do Shopping da Gávea. Gente que cruza a cidade em ônibus caros e caindo aos pedaços, enfrentam as filas da Central do Brasil como o coração na mão por saberem que seus filhos estão sozinhos no outro lado do Rebouças, na beira da Via Dutra, nas vielas com esgoto à céu aberto.

A menina que estudou comigo era uma dessas crianças. O pai saiu de casa e sumiu no mundo, a mãe teve que criar ela e a irmã sozinha. Era costureira, trabalhava intensamente, nos finais de semana costurava em casa. A moça um dia me contou que numa noite de Natal a polícia invadiu o barraco onde ela morava, ela acordou com o barulho e quando viu a bota de um dos policias pensou que fosse o Papai Noel. Mas ele não trazia presentes, apenas um fuzil.

A mãe da menina nunca se conformou em morar naquele lugar. Juntou dinheiro por anos, muitos anos e conseguiu comprar uma casinha em São João de Meriti, tudo nos conformes, construída no asfalto e solenemente legalizada. Essa menina que estudou comigo falava com um orgulho imenso da casinha e da mãe batalhadora. Ela fazia o cursinho durante a noite e trabalhava pela manhã, nunca a ouvi reclamar ou se lamentar.

Penduradas nos morros há muitas dessas histórias de vida, de sacrifício diário e pequenas conquistas. Com um salário mínimo não dá para morar no asfalto, mas é inadmissível que essas pessoas tenham que viver nas favelas, sem dignidade, cercadas por marginais e sob o fogo pesado da guerra carioca que mata mais que a do Afeganistão.

Não defendo invasões, não defendo moradias ilegais, defendo uma política habitacional séria, linhas de crédito para que famílias carentes possam comprar suas casinhas. Há muita gente que desmerece programas como o “Minha casa, Minha vida”, é fácil fazer isso de dentro de um apê com três quartos. O “Minha casa, Minha vida” precisa melhorar, as obras estão lentas e já tem gente burlando o sistema, mas a essência do programa é boa sim. Tem gente que fala mal do Bolsa Família, é uma esmola miserável e serve para criar currais eleitorais dos paternalistas, sim… mas diga isso na cara de uma criança que desmaia de fome, diga isso para o professor mal remunerado que junta o pouco que tem para dar comida para uma molecada que convive com a miséria. Sessenta reais faz diferença para quem já abriu a despensa e a encontrou vazia. Não podemos deixar essa gente desassistida, por favor! Mas não podemos também permitir que o governo assaltado por oportunistas canalhas transforme a tragédia em máquina de votos. Que o Bolsa Família continue como um plano para tirar pessoas do desespero, mas que seja um paliativo, algo provisório e que essa gente possa parar de depender da ajuda do Estado o quanto antes. Que linhas de crédito para moradias populares cresçam e que as famílias brasileiras possam, todas, planejar a compra da casa própria e ter a dignidade de pagar pelo próprio teto!

Vamos parar de desmerecer o que é essencialmente bom, vamos pressionar para que seja totalmente bom.

É democracia?

Cabral e Cavendish em ritmo de festa

Cabral e Cavendish em ritmo de festa

E a patifaria se desnudou no Congresso. Já sabíamos que a CPI do Cachoeira terminaria em pizza, mas os parlamentares andam especialmente desavergonhados nos últimos tempos. O deputado federal Cândido Vaccarezza (PT-SP) foi flagrado trocando mensagens pelo celular com o governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral onde aparentemente garante a blindagem do governador, pouco antes o mesmo Vaccarezza tentou impedir que a CPI investigasse as obras superfaturadas da empreiteira Delta que tem por presidente um amigo íntimo do Cabral, recentemente fotos e vídeos de Cabral se acabando na champanha em Paris junto com o dono da Delta nos deram exemplos de uma amizade verdadeira cimentada com milhões de dólares. Comovente.

A classe média mais ligada em assuntos políticos e econômicos prende o fôlego revoltada e matuta sobre o que pode ser feito para contornar a situação. Essas pessoas acompanham os noticiários, a atuação dos parlamentares, a administração de suas cidades, estados e do país. São cidadãos honestos, pagam impostos, respeitam as leis. A cada dois anos pensam cuidadosamente sobre os políticos que receberão seus votos, pesquisam sobre a vida do fulano, verificam se o candidato está envolvido em escândalos, acompanha a alianças políticas nas quais está envolvido, estudam o plano de atuação política e as propostas do cara. E quando os votos são finalmente computados no dia da “festa da democracia” levam um tapa na cara quando constatam que corruptos notórios foram eleitos ou reeleitos.

É que esses seres pensantes são minoria na comunidade dos idiotas chamada Brasil, e a democracia é extremamente competente em oprimir as minorias e impô-las as sandices dos imbecis.  

É que nessa terra de ninguém vence o candidato que mais tem recursos financeiros para torrar nas campanhas, independente das fontes desses recursos, independente se foram obtidos legalmente. Quanto o senhor Cavendish deve ter investido na campanha de Cabral para vencer licitações e superfaturar obras rocambolescas e mal executadas? Quanto o Eike Batista fatura em empréstimos do BNDES – o último foi de mais de 200 milhões de reais – quanto doa para campanhas de aspirantes à presidente da república? Eleitos graças à esses investimentos para campanhas, os candidatos se transformam em agentes dos interesses desses caras e usam a estrutura Estatal para agradar os patrões. Cavendish vence licitações, Eike Batista se torna uns dos mais ricos do mundo às custas de dinheiro público obtidos por empréstimos que até hoje não deram o retorno que deveriam para o Brasil.

 E a maioria vota nos que aparecem mais, ou nos que fazem rir mais. Tiririca, esportistas falidos e artistas do quinto escalão infestam o Congresso Nacional ao lado dos lacaios dos magnatas.

O que é isso?

É a democracia!

Quando eleitos pela maioria de bestas, os calhordas ganham legitimidade para assaltar nossa Nação. Já deu para perceber o que está podre no nosso reino? 

A comissão da verdade

Com todas as falhas, com todos os percalços, oriundos sobretudo da incompetência de nossos legisladores, as leis existem para garantir que o Estado cumpra seu papel principal: proteger seus cidadãos. Todos eles, independente dos crimes que fazem deles réus. Todo cidadão tem o direito à defesa, tem o direito de que os casos que os envolvam sejam investigados com cuidado. Digo isso para enfatizar que sou absolutamente contra a “justiça com as próprias mãos”. E não sou contra apenas por questões teóricas.

Já vi tribunais popularescos em ação.

Quando eu era moleca estava brincando na casa de uma amiga, nossas famílias se conheciam e como nossas mães não gostavam que ficássemos na rua sempre brincávamos ou na casa dela ou na minha. Morávamos bem pertinho uma da outra e quando deu a hora que minha mãe determinou para que eu voltasse para casa me preparei para sair quando fui impedida ou pelo pai ou pela mãe da minha amiga, não me lembro muito bem. Mas lembro porque me seguraram lá. Um homem acusado de estupro estava sendo linchado na rua que era exatamente o lugar que eu deveria passar para chegar à minha casa. Ouvi os gritos e a algazarra, tive que esperar até que o povo terminasse com aquele espetáculo dantesco. Depois houve silêncio e saí correndo para casa com medo de levar bronca da mãe por causa do atraso – minha mãe não admitia atrasos, se ela falasse que era para voltar para casa 16h era para estar dentro de casa exatamente nesse horário. Foi impossível deixar de ver o corpo do homem, nunca tive essa vontade sádica de olhar pessoas falecidas na rua, mas não teve como escapar da visão pois naquele momento a rua estava vazia e apenas o corpo jazia bem no meio. Logo depois da morte do homem as pessoas que participaram do linchamento saíram da cena do crime antes da chegada da polícia. No peito dele estava uma placa improvisada feita de papelão onde se lia “estuprador”. Apertei o passo para casa, não estava exatamente assustada com a cena, estava mais preocupada com a hora.

Era eu uma criança insensível? Não sei… mas não era a primeira vez que eu testemunhava a violência. Cresci num bairro violento na periferia da cidade do Rio de Janeiro. Já presenciei muita coisa e não gosto de relembrar, mas não me lamento. Tudo isso fez parte do processo da minha formação enquanto ser humano. E se há algo no qual eu acredito é na importância do direito a defesa, na importância do funcionamento efetivo dos três poderes do Estado agindo em harmonia e pautados nas leis fundamentadas em direitos, garantias e deveres coletivos e individuais. A massa popular ensandecida e descontrolada é capaz de crimes incomensuráveis, e mais monstruoso, passado o ato quem será o culpado? Quem será punido quando os atrozes chegam a centenas, milhares, milhões? Até hoje não sei se o homem assassinado naquela tarde era realmente culpado, mas poucos anos depois desse acontecimento apareceu um estuprador no bairro. Colaram cartazes com o retrato falado do sujeito na região e numa tarde um rapaz quase teve o mesmo destino do linchado. Confundiram-no com o estuprador e uma turba começou a agredi-lo, até que alguém surgiu e conseguiu convencer o populacho de que o moço era um trabalhador inocente, ele teve sorte. Isso eu não presenciei, a moça que fazia faxina na minha casa viu e me contou, mas por um bom tempo isso mexeu comigo, eu já era mais velha e já tinha uma leitura mais madura sobre minhas reações diante da violência.

E o que tudo isso tem a ver com a Comissão da Verdade que foi instaurada oficialmente ontem?

Ora, tendo ou não poder de punição, essa Comissão deve garantir o direito à defesa, pois punir vai muito além de encerrar alguém atrás das grades. Acusar alguém de ser um torturador covarde é grave e o mínimo que se espera de uma acusação dessa magnitude é que o suspeito possa se defender! Mesmo que ele não seja preso, imagine como será sua convivência com a família, amigos, vizinhos, com toda a comunidade onde ele vive?

E os efeitos dessa Comissão meio torta já se fazem sentir. Um grupo de moleques de todo o Brasil começou um movimento chamado “escracho” no qual vão para a porta das casas de supostos torturadores e sem que os acusados possam esboçar qualquer defesa fazem um estardalhaço, picham o chão da rua em frente à casa da pessoa, trazem cartazes que dizem “seu vizinho é um torturador” e coisas do tipo. É a “justiça” com as próprias mãos: irracional, animalesca, passional, criminosa…

No vídeo abaixo vemos um desses “escrachos” realizados contra o médico João Bosco Nacif da Silva. O senhor Nacif foi o legista que fez o laudo da necropsia de alguns mortos durante a ditadura. Como diz um próprio militante do tal do movimento “Levante da Juventude”, os resultados dos laudos ainda não estão bem explicados. Não estão bem explicados, preste a atenção! Não se sabe em quais circunstâncias o médico teve que liberar os laudos, não se sabe se ele sofreu ameaças, não se sabe… e mesmo assim os “justiceiros” foram à casa do homem executar a punição, sem que ele pudesse dar a sua versão dos fatos. Nacif, um senhor de idade avançada, reagiu com evidente desespero e sozinho enfrentou seus carrascos.

Deixo a pergunta para os jovens do “Levante da Juventude”: é assim que vocês querem justiça? Vocês que se dizem defensores dos direitos humanos realmente acham legítimo desrespeitar direitos humanos para supostamente promover direitos humanos? Não há uma contradição nessa história?

Haka – o grito Maori

Haka é o nome dado para diversas danças e cânticos maoris. Maori foi o termo adotado por diversas populações nativas da Nova Zelândia, e falo em diversas populações porque o termo se disseminou com a chegada dos europeus à região, de modo que é muito provável que realmente se refira a vários povos. Esse tipo de fenômeno não é incomum, durante a colonização do Brasil, por exemplo, muitas tribos acabaram se reunindo e adotando um nome em comum, o que dá a falsa impressão de que sempre foram um único grupo. Esse processo tem um nome, chama-se etnogênese. Um dia eu falo mais sobre isso.

Mas vamos voltar à Haka.

A seleção de rugby da Nova Zelândia tradicionalmente realiza uma das danças haka, a “Ka Mate“, antes de seus jogos e isso ajudou a popularizar esse traço da cultura Maori por todo o mundo, mas também deu a falsa idéia de que a haka é somente um canto de guerra. De fato há haka (o plural é haka mesmo) que eram realizadas antes das batalhas, elas consistem em geral num canto forte, puxado por um líder, onde os outros guerreiros respondiam também cantando alto, batendo os pés, as mãos nos peitos ou nas pernas e fazendo caras ameaçadoras para os inimigos, a intenção era motivar os guerreiros e também amedrontar os adversários. Mas as haka podiam ser interpretadas em momentos de grande alegria ou para recepcionar um visitante ilustre. Além disso, a haka não é realizada apenas por homens, em muitas delas as mulheres acompanham os guerreiros, há haka ainda que são realizadas majoritariamente por mulheres e outras por crianças. A Ka Panapana, por exemplo, começa com as mulheres a frente dos homens.

A primeira vez que tive conhecimento desse tipo de dança foi no filme “A Encantadora de Baleias”. O filme é adorável e deixo como sugestão para as noites geladas que se aproximam. Enquanto isso, fiquem com alguns vídeos de haka que pesquei no Youtube:

%d blogueiros gostam disto: