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Folha de São Paulo e a Ditadura

Saiu na Página/12, periódico argentino:

A mea culpa do jornal paulista

O influente jornal brasileiro Folha de São Paulo reconheceu em suas páginas ter respaldado o golpe militar de 1964, que destituiu o presidente constitucional João Goulart e instalou uma ditadura que se estendeu até 1985.

O jornal que celebra seus 90 anos, se posicionou sobre este momento histórico em um artigo onde narra a trajetória do periódico mais vendido e influente do Brasil. “Em 1976, o jornal, que apoiou o golpe militar de 1964, abre espaço em suas páginas para opositores da ditadura e se converte em um dos catalizadores da abertura”, escreveu em sua edição de segunda-feira.

Em 2009, organismos de direitos humanos protestaram na porta da sede jornal, no centro da cidade de São Paulo, porque um editorial da Folha qualificou o regime militar brasileiro de uma “ditabranda“, em comparação com as outras ditaduras que governaram países sul americanos nas décadas de 60 e 70.

De todo modo, o matutino matizou sua admissão de ter respaldado a ditadura ao destacar “o apoio às campanhas populares das Diretas Já entre 1983 e 1984 e o lançamento de um projeto editorial com periodismo crítico, apartidário e pluralista transformaram a Folha no jornal mais lido do país e [a Folha] ocupa esse posto há 25 anos”

Atualmente o diretor do jornal é o filho de Octavio Frias e a empresa Folha é a mais forte em conteúdo de internet no país, com participação no portal UOL. Também possui o jornal Valor Econômico, em sociedade com outro gigante dos meios de comunicação do país, o grupo Globo, do Rio de Janeiro.

A presidenta Dilma Rousseff, presa política e vítima de torturas por parte da ditadura, participará nesta Segunda-Feira dos atos de celebração dos 90 anos do jornal, na sala São Paulo, principal espaço destinado à música clássica.

Fonte: Página/12

Tradução: V. Silveira

Pois é, a fanfarronice da Folha já é internacionalmente conhecida. Aliás, hoje sou uma mulher livre das deformações desse jornaleco! Cancelei alegremente minha assinatura e fiz questão de informar para a atendente que a hipocrisia da Falha de S. Paulo foi o motivo do cancelamento.

Não me iludo, sei que não existe imprensa imparcial, mas prefiro aqueles que assumem sua parcialidade – como o Estado de São Paulo – do que os ludibriadores da opinião pública que tentam nos passar uma idéia falsa de imparcialidade.

 

O herói não está na camisa

Winston Churchill teria dito que quem não é comunista na juventude não tem coração, mas quem é comunista na maturidade não tem cérebro. Isso me acalma a alma, pois concluo que tenho tanto coração quanto cérebro.

Pois é, fui comunista na fatídica época da adolescência. Certa de que deveria ser contra alguma coisa virei contra tudo, então mamãe me advertiu que eu era uma rebelde sem causa. Para contornar o problema li uns livros imbecis para o público juvenil – aliás, deveriam ser proibidos! – e eis que me deparei com o comunismo. Achei que tinha descoberto a roda e arrumei um exemplar de tradução duvidosa do Manifesto Comunista de Marx (e Engels…kkk). Numa noite quente carioca tranquei-me no quarto e quando sai estava certa de que tudo sabia sobre marxismo, sobre os males de todo o mundo e a solução para eles. Virei oficialmente comunista, para sagrar meu batismo comprei uma camiseta com a cara do Che Guevara e uma boina com a estrela vermelha! Dá para acreditar? É…

Andava eu orgulhosa com a cara do Che Guevara na camisa e a boina na cabeça – para que todos soubessem que lá estava uma revolucionária! Graças a minha sábia e paciente mãe a camisa e a boina eram sempre lavadas “ter filha revolucionária até engulo, mas que cheire a revolucionária, jamais!”. [Te amo mãe!]. Pois bem, certa vez estava eu rigorosamente uniformizada com o Che e a estrelinha quando uma amiga de minha tia disse – para meu total desespero e revolta – que se eu e todos os aborrescentes que usavam a indefectível camisa e a boina com estrelinha soubéssemos as atrocidades que o argentino metido a salvador da humanidade tinha feito, rasgaríamos a camisa imediatamente e queimaríamos a boina. Fiquei furiosa e a acusei de… vocês sabem… pelega, reacionária, burguesa, malvada, defensora das injustiças e blá blá blá. Ela riu me deu um tapinha nas costas e pediu para eu pegar um copo de refrigerante para ela. E lá foi a revolucionária encher um copo de Coca-Cola para a amiga reacionária da tia.

Filiei-me ao Partido Comunista (PC do B) e ia toda feliz para as convenções. Logo percebi a chatice dos discursos, mas era lá o meu lugar, era lá que eu faria a revolução! E conclamava os camaradas, e falava dos perigos que os “milicos” representavam caso Lula fosse presidente e tals e tals. Mas como felizmente me restava o cérebro, comecei a ler outros textos além dos canônicos indicados pelo Partido. E soube dos Gulags soviéticos, e soube do Paredón cubano, da Revolução Cultural chinesa, da perseguição e assassinato de opositores, da homogeneização forçada do pensamento, dos livros proibidos… mas achava que para fazer a revolução era preciso enfiar o pé na lama, insisti, mas pensei que poderia mudar um pouco isso.

Numa convenção nacional do PC do B ousei falar que Stálin foi um assassino sanguinário e fui rechaçada. Foi quando, em uma outra convenção do partido, fui perguntada por uns rapazes que estavam na rua sobre o que estava acontecendo. Quando disse que era uma convenção do partido, eles perguntaram se poderíamos arrumar camisas para o time de futebol que estavam organizando. Fiquei uns bons minutos explicando que isso não era correto, que eles deveriam aderir ao partido por ideologia, que eles precisavam somar na luta que os libertaria, etc… voltei orgulhosa para contar aos camaradas meu grande feito, ao que um deles respondeu “até que podemos arrumar as camisas, ora! Serão votos!”. Balde de água fria! Saí imediatamente e voltei desolada para casa. Acabava ali meu sonho revolucionário. E me lembrei dos mortos nos Gulags, nos fuzilados no Paredón, dos perseguidos pelos camaradas, dos intelectuais mortos pelo “Grande Timoneiro”, do Partidão… o que essas pessoas diziam, por que lutaram e morreram para evitar “A Revolução”?

E soube que aquela revolução era o tiro de misericórdia na liberdade tênue que temos, no direito de lermos, de trabalharmos, enriquecermos, vivermos de forma simples ou mediana. Nosso direito de criticar o que nos incomoda, sugerir mudanças, escrever em blogs e navegar pela internet. Nosso direito de não ter como governantes pessoas que nos matam por desejarmos qualquer coisa que eles consideram “antirrevolucionária”. O direito de não dividir a miséria e sim, de caminhar rumo a uma sociedade que preza pelo conhecimento plural e livre, que se regula por leis que garantem a propriedade privada, a isonomia de direitos, a livre manifestação de pensamento, o direito de defesa e de acusação, por que não? O debate, a réplica e tréplica. As artes, boa comida, universidades e até futilidades. O campo, as cidades e praias, a liberdade de escolher nossa morada, de vendê-la e comprá-la.

E vi que o herói não está na camisa! Eram muitos os heróis, e seus corpos sucumbiram diante das metralhadoras, do gelo siberiano, da ignorância e propaganda “revolucionária”. Mas eles prevaleceram, venceram, e a prova disso é que escrevo essas linhas hoje.

A todos os heróis anônimos que partiram, aos que ainda vivem nas sombras da indiferença e falta de agradecimento, à todos os heróis que venceram e cujo fruto dos sacrifícios saboreamos hoje, deixo aqui minha singela homenagem:

A ditadura da fé

Sempre hesitei falar de religião, a não ser quando sou incomodada por algum teísta que tenta me forçar a aceitar suas crenças. Poucas coisas me irritam tanto quanto Testemunhas de Jeová que batem às nossas portas domingo de manhã para pregar a palavra que eles consideram de Deus. Se eu quiser ouvir esse tipo de coisa não faltam igrejas! Acho um abuso alguém ir de casa em casa, violar a calma de nossos lares, para pregar. Acho um desrespeito alguém gritar em ônibus, metrôs e trens trechos bíblicos, violando o direito seguirmos nossas viagens em paz. É uma invasão, uma violência. Já não bastam as rádios cristãs? Os horários nas grades de redes televisivas – que são concessões públicas – ilegalmente vendidas para toda sorte de igrejas com promessas charlatães de curas milagrosas e riquezas fáceis? Já não bastam as milhares de igrejas que desfrutam de todo o tipo imaginável e inimaginável de incentivo fiscal e benesses públicas que bradam seus hinos e louvores nos mais absurdos decibéis? Ainda temos que engolir essa gente na porta de nossas casas domingo de manhã? No transporte coletivo e nas praças de nossas cidades?

A crença dos outros me incomoda nesse sentido. Incomoda mais quando os vejo tentando impor suas leituras bíblicas em nossas casas legislativas, executivas e judiciárias. Incomoda-me quando querem que sua fé – algo de âmbito privado – seja base deliberativa do Estado – cuja obrigação é velar pela coisa pública. É engraçado como sempre tem um pastor ou padre para dar pitaco sobre tudo: desde pesquisas com célula-tronco até economia doméstica. Diabos! Por que temos que consultar um senhor com a Bíblia sob o sovaco quando precisamos decidir sobre lei de biossegurança? Que formação técnica eles têm para versar e opinar sobre isso? O livro da Gênese que diz que tudo foi criado em seis dias e há poucos milênios? O Deuteronômio que diz que as mulheres menstruadas ficam impuras e que um filho desobediente deve ser morto? Ou a idéia estapafúrdia que a vida e tudo o mais têm aproximadamente seis mil anos, algo que contraria as evidências óbvias da idade geológica desse planeta, só como exemplo, e os fósseis que comprovam irrefutavelmente a genialidade da Evolução? Prezados, se vocês tomam remédios, se foram operados da apendicite, se voam em aviões super modernos, se andam de carros e refletem sobre a ocupação humana nas Américas isso é graças à ciência. São cientistas – e incluo aqui profissionais das ciências “naturais” e “humanas” – as pessoas aptas a dar as opiniões mais seguras e confiáveis sobre biossegurança e, por exemplo, abrangência de leis sobre liberdade religiosa. Por quê? Porque eles estudam, pesquisam e debatem, não simplesmente leram na Bíblia e crêem que é assim que Deus quer.

E já que esses religiosos violam meus direitos ao tentarem impor suas crendices a todo o meu país, eu acho que é mais do que hora de reagir. Pouco me importaria se eles rezassem em seus templos e dissessem para seus cordeiros como eles devem pastar, mas esse não é o caso. Eles querem nos dizer com quem e como devemos dormir, como devemos nos vestir, que músicas podemos dançar e em quem devemos confiar… e para eles, adivinhem? É neles que devemos confiar. E como fazem? Invadem nosso Congresso, pressionam todas as instâncias de nosso governo, tomam o Supremo Tribunal Federal, dominam os meios de comunicação e nos ameaçam com a danação eterna.

Sempre hesitei falar de religião por respeito à fé alheia, mas a partir do momento que alguns religiosos desrespeitam meu direito de não acreditar em suas crenças e em não querer seguir seus preceitos, ah sim, é preciso falar de religião. E se você pensa o mesmo, não se cale!

Douglas Adams, um carinha muito bacana e que faz falta, fez um discurso em 1998 no qual tratou de algo bastante interessante. Como bem falou Adams, o bom da ciência é que as hipóteses são colocadas à prova, elas são debatidas, testadas e se não funcionam simplesmente são abandonadas. O mesmo não vale para a religião, a religião tem dogmas, princípios que não podem jamais ser questionados. Podemos debater sobre política, sobre economia, sobre a vida pessoal de Darwin, mas sobre religião não! Eu posso discordar da sua idéia sobre democracia, posso falar que seu jeito de vestir é horroroso e que seu amor pelo Lula é lastimável, mas jamais posso questionar sua fé. Esse tabu, esse medo de ferir os corações sensíveis dos crentes geram danos difíceis de mensurar. É baseado nisso que pastores e padres mal intencionados esbravejam seus preconceitos sem barreiras. Se eles dizem “é assim que diz minha religião”, calamos a boca e dizemos “Ah, então eu respeito”. Então devemos respeitar o “direito” de ofender, humilhar e condenar porque faz parte da fé deles? Devemos respeitar que eles batam às nossas portas domingo pela manhã, que nos imponham suas idéias sobre os direitos de células congeladas ou façam escândalo no metrô quando desejamos ouvir Handel? Devemos respeitar o fato de eles influenciarem nas leis de nosso país na tentativa de impedir que todos tenham os mesmos direitos, já que assim diz a Bíblia? Estou certa que não… vamos então sair do armário e falar de religião.

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